Se o Espírito Santo tem uma trilha sonora ela se chama Maurício de Oliveira
A morte de Maurício de Oliveira, o mais importante músico do Espírito Santo, neste 1º de setembro de 2009, abre uma lacuna que dificilmente será preenchida. Não que não tenhamos excelentes músicos, uma dádiva, aliás, que todos agradecemos aos deuses da música, mas porque envolve uma história magnífica de um homem que nasceu simples e que soube manter sua simplicidade até o fim dos seus dias, mas porque também, e principalmente, viveu de sua arte e compôs uma obra imortal. As construções elaboradas de Maurício e seu talento em dedilhá-las viverão por gerações e gerações e ficarão marcadas como elaborações de um tempo em que vida era uma passagem de realizações essencialmente coletivas, porque ninguém faz música para si próprio, mas antes de tudo para deleitar ouvintes, mesmo os mais individualistas. Maurício viveu para nos dar o prazer de ouvi-lo.
Maurício não só deixou uma obra, mas inúmeros seguidores que com ele aprenderam a arte de dedilhar cordas sonoras. Ele formou várias gerações de músicos, foi uma escola respeitada em todos os grotões do estado e nas mais sensíveis audiências do planeta. Não foi fácil, porque não é fácil viver de música quando não se está disponível para a indústria fonográfica. A obra de Maurício não foi feita para o consumo fácil, massificador, sem nunca ser elitista, pelo contrário, uma de suas marcas é a popularização do violão clássico.
Obras de arte
A Canção da Paz, sua obra mais significativa, e a mais conhecida o levou, em 1955, a Varsóvia (Polônia), onde conquistou o honroso segundo lugar no Festival Internacional do Violão para a Juventude. Gravou a obra completa de Villa Lobos nos anos 1960, interpretou Dilermano Reis, em 1971, e Ernesto Nazareth, em 1980, sem deixar de compor suas próprias pérolas. Tocou no programa César de Alencar, no Tempo de Ouro da Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, onde apresentou-se sempre com os grandes nomes da MPB da época, como Altamiro Carrilho, Dino, Canhoto, Valdir Azevedo, Abel Ferreira e Dilermando Reis, assim como também acompanhando na Rádio Nacional cantores como Marlene, Emilinha Borba, Francisco Alves e Orlando Silva.
Mas optou por viver na sua querida ilha de Vitória. Maurício de Oliveira nasceu em Vitória, no dia 19 de julho de 1925. De família simples, filho de pescador, passou a infância na Praia do Suá, onde garoto aprendeu a tocar cavaquinho e depois passou para o violão. Ele costumava dizer que naquela época tinha apenas duas saídas: “ou ia virar pescador, como meu pai e meu avô, ou teria de enfrentar uma luta muito séria para ser músico, como meu bisavô português, José Ignácio de Oliveira. Eu preferi o caminho mais difícil”.
Começou a tocar com 11 anos, e foi “descoberto” daí a um ano, quando tocava com seu irmão José, na Festa de São Pedro, na praia do Suá, pelo diretor artístico da Rádio Espírito Santo, Clóvis Gomes, que os convidou a ingressar no rádio. Formaram então a dupla Irmãos Oliveira, que ensaiou durante dois anos, de graça, na rádio, pois enquanto o governo federal não desse a concessão a rádio não poderia ir ao ar. A rádio só estreou mesmo sua programação em setembro de 40, e as atrações eram a Orquestra de Clóvis Cruz, o Regional de Luís Noronha, a dupla sertaneja Sebastião e Peixinho e os Irmãos Oliveira. Maurício tinha de tocar com uma autorização do Juizado de Menores: tinha, então, 13 anos.
Maurício tem sua história ligada à da Rádio Espírito Santo por muitos anos. Todo novo disco gravado, toda homenagem, todo prêmio, tudo isso era noticiado pela rádio como se fosse ela mesma a vencedora, tamanho o carinho com que tratava o que dizia respeito a um de seus primeiros contratados. Foi de certa forma como representante da rádio – e, claro, da nossa música, que ele esteve por duas vezes em Portugal, terra de seus bisavós.
O primeiro disco, um compacto simples, saiu pelo selo da Continental em 1952. Depois vieram outros, por gravadoras diferentes, como também as viagens para apresentações pelo país e no exterior, onde recebeu prêmios e honrarias. Sua biografia musical registra ainda a passagem pela big band do consagrado Hélio Mendes, onde tocou guitarra.
Maurício de Oliveira deixa uma vida dedicada à família e à música. Sua paixão pelos instrumentos inspirou seu filho Tião, os netos Geraldo e Lucas (os três violonistas) e a neta pianista Antônia. Ou seja, a música tornou-se marca registrada da família Oliveira. Sua vida rendeu ainda o livro O Pescador de Sons, de autoria do jornalista e escritor Marien Calixte e um documentário homônimo realizado por Cloves Mendes.
Alguns episódios que marcaram a vida de Maurício de Oliveira
Quando o famoso apresentador de auditório César de Alencar veio à Vitória para fazer o show da Rádio Nacional, ele teve o primeiro contato com Maurício, que era um dos músicos acompanhantes do evento e se impressionou com o rapaz, logo convidando-o para tocar na Rádio Nacional. Este momento foi um salto fundamental na carreira de Maurício de Oliveira em todos os sentidos: O Programa César de Alencar era o mais ouvido do país entre os anos 40 e 50. A perfomance de Maurício no Rio de Janeiro mudou a opinião do seu Sebastião (que logo comprou o primeiro violão do filho). A partir de então, Maurício fez várias viagens ao Rio, apresentando-se sempre com os grandes nomes da MPB da época, como Altamiro Carrilho, Dino, Canhoto, Valdir Azevedo, Abel Ferreira e Dilermando Reis, assim como também acompanhando na Rádio Nacional cantores como Marlene, Emilinha, Francisco Alves e Orlando Silva. Em 1952, Maurício toma-se o pioneiro dos músicos capixabas e grava seu primeiro compacto simples com as músicas “Esplanada” e “Ardiloso”. Nessa mesma época assmne o cargo de Diretor Artístico da Rádio Espírito Santo, o que lhe propiciava tanto em apresentar os músicos famosos do estado e do Brasil, como também os novos valores que surgiam.
Foi nesse período de “caça aos talentos” que Maurício conheceu um de seus mais saudosos amigos: Altemar Dutra. Altemar morava em São Torquato (Vila Velha), sendo recém chegado de Aimorés (MG). Ainda no início de sua carreira, Altemar Dutra cantou em Cachoeiro do Itapernirim antes de desembarcar em Vitória, e quando aqui chegou, seu interesse maior era cantar na principal rádio do estado, a Espírito Santo. Maurício nos conta o encontro entre os dois: -”Eu estava na Rádio quando o Mundico (pistonista) chegou pra mim e disse que tinha um garoto com um violão na escada. Conversando com o garoto, ele me disse que queria fazer sucesso no rádio. Realmente sua voz era belíssima e, apesar de estar cansado de ver os meninos prodígios (que alteravam o tom de voz por causa da puberdade), eu resolvi fazer um teste com ele. Altemar cantou algumas vezes nos programas da Espírito Santo e um dia me confidenciou que queria aprender violão comigo, afim de acompanhar melhor suas músicas. Bom, Alternar estudou comigo durante um ano”. O final desta história já é de domínio público: Altemar Dutra vai pro Rio de Janeiro levando na bagagem um bilhete de recomendação para Jair Amorim. Anos mais tarde, depois de gravar o seu primeiro disco pelo selo Odeon, Altemar toma-se um sucesso nacional. Mas quem teria mandado o bilhete de recomendação para Jair Amorim? o próprio Maurício nos explica este fato até hoje oculto: – “Alternar me procurou um dia dizendo que ia um cidadão pro Rio de Janeiro querendo levá-lo. Poderia ser uma chance e como eu era amigo do Jair Amorim e do Joel Guilherme (famoso locutor da Rádio Espírito Santo que transferiu-se para o Rio), ele pediu para levar um bilhete meu de recomendação. Eu nunca disse isso a ninguém”.
Uma das imagens que mais marcou a adolescência de Maurício de Oliveira foi a das crianças brincando amarelinha na beira da Praia do Suá. Maurício ficava sentado em meio aos pescadores que passavam o final de tarde ali conversando e pensava em imortalizar aquela imagem numa música. Alguns anos mais tarde, o mundo estava saindo de uma guerra dolorosa que matou mais de 30 milhões de pessoas. A palavra “paz” era algo sagrado na época para quem buscava uma vida mais solidária entre os povos, principalmente o povo europeu. Em 1952, Maurício compôs “Canção da Paz”. Nesta música, ele retratou tanto a imagem das crianças quanto o movimento pacificador do período, sendo que em 1955 sua canção pela paz atingia o 2º lugar no 5º Festival Mundial da Juventude em Varsóvia. Mais do que a simples premiação, Maurício foi um dos primeiros brasileiros a ter o seu trabalho musical reconhecido em importantes centros artísticos do mundo, conquistando a oportunidade de se apresentar em outros países da Europa. Os veículos de comunicação no Brasil não fizeram um “grande alarde” em tomo da trajetória européia de Maurício, mas as pequenas informações que circulavam nos jornais o ajudaram em muito a ter o respeito perante os demais músicos brasileiros e, em especial, do povo capixaba.
Nos anos 60 e 70, Maurício de Oliveira aceitou seu maior desafio, colocado pela gravadora London Music. Ele teria que gravar as complicadas obras para violão dos imortais Heitor Villa-Lobos e Ernesto Nazareth. Maurício conhecia desde menino boa parte das músicas dos dois compositores, mas nunca havia pensado em interpretá-los. Foram meses de estudo em tomo das composições de Villa-Lobos e Nazareth, mas todo esse esforço valeu a pena: a coleção foi lançada simultaneamente no Brasil, Estados Unidos, Europa e Japão. Por consequência, Maurício de Oliveira concretiza sua posição entre os maiores violonistas da Música Popular Brasileira.
Assista aqui a apresentação do maestro Fabiano Mayer, considerado o sucessor do violonista Maurício de Oliveira, interpretando Canção da Paz
Para conhecer mais a vida e obra de Maurício de Oliveira recomendamos uma visita a monografia realizada em 1996 por José Carlos Rabello Filho, um dos mais fiéis retratos da passagem de Maurício neste mundo no endereço http://www.taru.art.br/enciclopedia/mauriciodeoliveira/monografiarabello/index.htm
Discografia
- Compacto simples com as músicas Ardiloso e Esplanada – 1952 – 1ª obra gravada por um capixaba
- Maurício de Oliveira e seu violão – 1960 – Musiplay
- Um violão e novas emoções – 1960 – Musiplay
- Hélio Mendes/ Weekend no Rio – 1961 – Gravado no Rio de Janeiro
- Hélio Mendes/ Weekend em Guarapari – 1961 – Ganhou o Prêmio Euterpe, recebido do governador Carlos Lacerda, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro
- Hélio Mendes e seu Trio Vagalume – 1963
- Hélio Mendes, seu piano e seu conjunto – 1964 arranjos musicais
- Hélio Mendes, seu piano e seu conjunto – 1966 arranjos de Maurício
- Villa-Lobos e o violão/ volume 1 – gravadora London
- Villa-Lobos e o violão/ volume 2 – gravadora London
- Violão em tempo de valsa – 1968 – gravadora London
- O Concerto de violão de Villa-Lobos – 1970 -
- Maurício de Oliveira interpreta Dilermando Reis – 1971 – gravadora London
- Canção da Paz – 1972 – gravadora London
- Maurício de Oliveira interpreta Ernesto Nazareth ao violão – 1980 – Lançado em homenagem aos 50 anos da Fundação Jônice Tristão
- Maurcício de Oliveira Erudito e Popular – 1985
- Encontro/ Maurício de Oliveira e Ernesto Nazareth – 2000 – Disco promocional
- Luiza – 2006 – Maurício de Oliveira (violão) e Hariton Nathanailidis (violino) – Disco promocional produzido pela Futura e dirigido para clientes
Biografias
- O Pescador de Sons, vida e a obra do violonista capixaba Maurício de Oliveira; Marien Calixte (jornalista e escritor).
- Maurício de Capixaba Oliveira Pescador de Sons, filme de Cloves Mendes.














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