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‘Leite derramado’, memórias quase póstumas de Chico Buarque

28 julho 2009 99 visitas Sem Falas

Leite DerramadoReinaldo Moraes

Como Brás Cubas, protagonista do clássico de Machado de Assis, Eulálio d’Assumpção, o de ‘Leite derramado’, quarto romance de Chico Buarque, revê a vida, a partir de seu fim. Não está morto, como o outro, e sim, moribundo. Mas conta suas memórias à maneira tateante dos personagens típicos do Bruxo.

Com o Brasil nas mãos

Eulálio d’Assumpção, aristocrata arruinado de Copacabana e da “fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra”, jaz na cama hospitalar da pobre enfermaria em que o internaram depois de uma fratura grave. Eulálio fez 100 anos. Fora de combate na vida, o espevitado ancião monodialoga em alguns capítulos com uma interlocutora nula e muda, uma moça, talvez uma enfermeira (talvez não), improvisada em depositária de suas extensas memórias vincadas a fogo pela incurável saudade de sua Matilde, antiga esposa para sempre amada, desaparecida de sua vida quando se achava na flor moreníssima dos seus 17 anos. Nunca vemos a suposta enfermeira que ouve e anota as histórias de Eulálio, mas, logo na primeira página, ele promete se casar com ela na tal fazenda da sua feliz infância.

Em outros capítulos, a interlocutora/ouvinte é a filha única de Eulálio, já octagenária. Outras vezes ainda esse jorro de lembranças de vida, embaralhando histórias de antepassados e descendentes, simplesmente escapa de sua cabeça sem destino certo, mas indo, de todo jeito, bater nos ouvidos afortunados do leitor desse encantador Leite derramado, quarto romance de Chico Buarque, que acaba de sair pela Companhia das Letras.

Neste ponto, quem não quiser perder tempo com resenhas, pode jogar o jornal pro alto e sair correndo para comprar o livro. Depois de ler, volte aqui, que eu estarei esperando. Isto é, se não embrulharem alguma tainha comigo antes. Começando a leitura hoje, sábado, na segunda você estará com o livro, de pouco menos de 200 páginas, devidamente saboreado e a cabeça recheada de ótimas histórias pra contar no Jobi, se estiver no Rio, ou na Mercearia São Pedro, se em São Paulo, depois de um fim de semana segurando nada menos do que o Brasil nas mãos.

Ter o Brasil em forma de romance nas mãos quase não é uma metáfora, visto que a saga familiar-patriarcal derramada por Eulálio se imbrica em profundidade com uma certa história do país vista ao mesmo tempo da varanda do poder e da perspectiva amarga de um ex-bacana acossado pela idade provecta e por uma miséria terminal que o reduz ao nível da “escória”, “dessa gente desqualificada”, como ele mesmo diz, com sua costumeira amargura elitista. E tudo isso permeado por cenas que dão a ver a olho nu os mal-abafados conflitos raciais brasileiros, da perspectiva de um narrador marcado por indelével atavismo escravagista. Essa questão do racismo, aliás, rende ao livro alguns de seus mais altos picos artísticos, inclusive em matéria de humor.

Me contorço aqui para reprimir a vontade de contar o que Eulálio diz à namoradinha branca de seu jovem bisneto que lhe saiu misteriosamente negro, depois de ouvi-la gemer e gritar cadelosamente no quarto ao lado, onde se atracava com o garotão. É absurdamente hilária a cena e vale por um ensaio uspiano sobre os aspectos sexuais do racismo made in Brazil. Mas não vou contar, para não estragar o impacto da leitura na fonte.

O Chico escritor está aqui na ponta dos cascos. Com sua habilidade narrativa para administrar ambiguidades e paradoxos no interior da narrativa – o que seu romance anterior, Budapeste, já tinha comprovado sem deixar dúvidas – ele atribui os constantes avanços e recuos no tempo da história às derrapadas e repetições próprias de uma mente senil, como a do seu narrador centenário. O romance, no entanto, segue em frente, lúcido e linear a sua maneira, justapondo histórias do tempo do rei, dos imperadores e das velhas e novas repúblicas, passando pelas ditaduras de Vargas e dos militares, cumprindo programaticamente o dever de casa historiográfico que ele parece ter-se proposto.

Galeria de tipos

Chico dá corpo e voz a um bom número de personagens saborosos, de corte realista mas com discretos contornos caricaturais. É o caso, por exemplo, de um de seus descendentes, o tataraneto, traficante pleiba de alto coturno que me lembrou muito o herói do filme Meu nome não é Johnny, de Mauro Lima. Na galeria dos antepassados, Eulálio capricha na figura da mãe, podre de elitista e dona de uma franqueza altaneira que não poupa ninguém que esteja um centímetro abaixo dela numa escala social caduca e mirabolante. Para se ter uma ideia, a páginas tantas, madame, que prefere falar francês sempre que possível, até com a criadagem, ganha gentis empadinhas de um conviva gaulês, patrão de seu filho. O sujeito não passa de um engenheiro sem nobreza que teve o azar de chegar atrasado a um jantar na casa da aristocrata. Ato contínuo, a soberba matriarca repassa as iguarias popularescas aos empregados da mansão, que as devoram degustando o Bourgogne estragado da adega do finado pai de Eulálio.

Esse Eulálio pai, senador da República Velha e, por sua vez, filho de um figurão do Império (e outro Eulálio), é um dos melhores personagens secundários do livro. Cocainômano que não vive sem os lendários bujões Merck, frequentador dos melhores bordéis parisienses e dissipador crônico da fortuna herdada, lega essa última característica ao filho, que vê seu dinheiro velho rapidamente aplastado pelo dinheiro novo que se espalha pela cidade verticalizando radicalmente seu perfil.

Já deu pra perceber, a essa altura, que o livro de Chico Buarque se deixa ler com avidez e um prazer tão romanesco quanto intelectual. Seu tamanho reduzido, que o levaria a ser confundido com uma novela, esconde uma profusão de trilhas ficcionais e grandes temas subjacentes – o mandonismo desenfreado das elites, a troca de guarda em seu interior, o racismo latente que permeia as relações sociais no país – que, mais do que explicam, encenam os principais períodos da História do Brasil: Colônia, Império, República Velha, período getulista, nova democracia interrompida em 1964 com a ditadura militar, e o Brasilzão global-periférico que emergiu da redemocratização em 1985.

Sérgio Buarque e Gilberto Freyre

Uma pauta historiográfica tão evidente no enredo de Leite derramado faz supor que baixou em Chico Buarque um santo acadêmico compósito, espécie de mescla dos principais explicadores do Brasil, entre eles seu pai, Sérgio Buarque de Hollanda, Gilberto Freyre de Casa grande e senzala e o crítico literário Roberto Schwarz, dos ensaios clássicos sobre Machado de Assis.

Creio que de Gilberto Freyre o livro sorve – e atualiza – uma idéia muito criticada pelo pensamento marxista, e que José Miguel Wisnik sintetiza com perfeição ao comentar sobre seu livro Veneno remédio: o futebol e o Brasil (Companhia das Letras, 2008): “(…) a sociabilidade brasileira, com base na mestiçagem, é para Freyre um remédio – a civilização original nos trópicos – extraído do veneno da violência escravista” (Entrevista a Luiz Zanin, n’O Estadão).

Chico, porém, faz seu narrador chafurdar no veneno da pobreza sem ser redimido pelo remédio da “sociabilidade brasileira, com base na mestiçagem”. Diz Eulálio no ocaso miserável da vida: “Mesmo vivendo em habitação de um só compartimento, num endereço de gente desclassificada, na rua mais barulhenta de uma cidade-dormitório, mesmo vivendo nas condições de um hindu sem casta, em momento algum perdi a linha”. Quer dizer, em nenhum momento deixa de empinar seu nariz aristocrata, apesar de sujo, dando pano para cenas muito engraçadas.

A elite

Sérgio Buarque de Hollanda, de seu lado, talvez enxergasse no percurso de Eulálio o registro literário da extinção da base social e do modo de vida de uma elite rentista que praticava seu portuguesinho escorreito, mantendo a devida distância da fala popular, enquanto exercia seu mandonismo corrupto e ineficiente, marca do poder de origem rural e lusa, segundo o autor do seminal Raízes do Brasil. Caberia como uma luva em Leite derramado a observação feita por Sérgio no fim desse estudo, de 1936, flagrando “o aniquilamento das raízes ibéricas de nossa cultura para a inauguração de um novo [tipo de sociedade], que crismamos talvez ilusoriamente de americano (…)”. Aqui, onde se lê americano, entenda-se massificado e vulgar.

Entretanto, o capitão do time de “roteiristas acadêmicos” por trás de Chico Buarque outro não é senão o santo máximo da judaicocristandade literária brasileira: Machadão de Assis, assimilado de forma personalíssima no Leite derramado, sem que seu autor lance mão de nenhum tique machadiano, desses que ginasiano usa em redação para impressionar a professora de português. Em Eulálio Assumpção, assim como em Machado, a eulalia a serviço da memória exibe sólida base culta, e mesmo cultíssima, infiltrada de coloquialismos vintage característicos do falar de certa elite e classe média antigas. Chico tira do armário uma língua deliciosamente inatual, em boa parte devorada pelo ritmo vertiginoso da dinâmica verbal pós-midiática, ou coisa que o valha. Uma iguaria a ser degustada em êxtase pelos apreciadores da última flor do Lácio em versão brasiliana-demodê.

Voltando ao Machado, acho impossível que o leitor brasileiro não identifique no Eulálio buarquiano a cruza bem-sucedida entre dois famosos herdeiros de famílias ricas saídos da pena de Machado: o Brás Cubas voluntarista, inconsequente e cronicamente diletante do romance homônimo, e Bentinho, o jovem e tímido burguês de Dom Casmurro que acaba dando num típico patriarca autoritário, paranóico e vingativo, às voltas com cornos delirantes depois de casado com Capitu. E é lógico que a mais famosa personagem feminina da lit-br se empresta aqui graciosamente de modelo a Matilde, musa-em-chefe do livro, moça linda, de pele castanha e olhos negros, criada na burguesia mas guardando na pele e nos modos (assobia na mesa para chamar o garçom) a marca das legiões excluídas de onde provém.

A capitulina Matilde, aliás, vê-se no centro de uma cena que parece ter sido soprada no ouvido do autor por Roberto Schwarz. Essa, não resisto, vou contar: Matilde está com Eulálio e uns franceses num cabaré com música de orquestra, no entre-guerras, período em que o personagem ainda vive no bem-bom financeiro e amoroso. Um francês do grupo se põe a elogiar em sua própria língua a natureza do país à bela morena carioca, que talvez nem o compreendesse. Narra Eulálio: “Embora o olhasse muito aplicada, sentada na ponta da cadeira, percebi que ela dançava o fox-trote da cintura para baixo”.

Coincidência ou não, é quase a mesma coisa que Roberto Schwarz nota sobre José Dias, o agregado da família de Bentinho, em Dom Casmurro, de Machado de Assis, ao sugerir que sua posição ambígua na família senhorial, ao mesmo tempo interna e subalterna, obrigava-o a funcionar em duas velocidades antitéticas, como um passista de escola de samba a executar movimentos “vagarosos e principescos da cintura para cima, enquanto os pés se dedicam a um puladinho acelerado e diversificado” (“A poesia envenenada do Dom Casmurro”, em Duas meninas, Companhia das Letras, 1997).

Acho divertida – e, claro, refinadíssima – a ideia de incorporar teoria no jogo literário, sem jamais botar nenhum personagem deitando tediosa falação teórica, como fariam escritores vulgares, que sempre os há – se os há! Aqui a teoria é encenada em pura literatura, e não exige que o leitor a identifique, muito pelo contrário. Só não recomendo aos colegas escritores que tentem fazer o mesmo em casa. (Se tentarem, rogo que não venham me mostrar.) Pode dar erradíssimo, com as pernas peludas da teoria aparecendo o tempo todo por baixo da saia da prosa ficcional.

O velho Francisco

Poderia insistir mais um pouco nesse joguinho do quem-é-quem por trás do Leite derramado, mencionando de passagem o Serafim Ponte Grande e suas fantasias sexuais com o Pinto Calçudo, no livro do Oswald Andrade. Eulálio parece ter-se inspirado nelas quando lhe bateu a repentina e caprichosa ideia de sodomizar um criado negro descendente dos escravos de seu avô, outro Eulálio. Mas, como não tenho todo este Idéias à disposição, fecho o assunto apontando uma das mais fortes fontes inspiradoras do livro: a canção O velho Francisco, do próprio Chico.

De fato, são óbvias – e sublimes – as similitudes antitéticas entre seu novo personagem de 100 anos de idade, Eulálio d’Assumpção, e o velho Francisco da canção homônima do compositor, um dos muitos clássicos instantâneos que legou à musica popular. Ambos os macróbios, o do livro e o da canção, poderiam proclamar de boca cheia: “já gozei de boa vida, tinha até meu bangalô”.

A pequena diferença é que, enquanto o eu lírico da canção buarquiana é um ex-escravo que se gaba de ter sido “alforriado pela mão do imperador”, o elitista Eulálio Assumpção descende dos caras que viveram nas costas de africanos cativos, sobre as quais deitavam lambadas de chicote como paga por seus préstimos.

Enfim, se Chico resolveu mesmo atacar de sociólogo e historiador no marco de uma linguagem e uma narrativa essencialmente literárias, com altíssimo rendimento estético – e poético, o que faltou salientar aqui – o fato é que se deu bem. Acho que, em última análise, Chico “fez porque podia”, para citar Bill Clinton (“I did it because I could”), tentando explicar a jornalistas porque tinha dado uns güentos naquela estagiária gordinha dentro da Casa Branca. Chico Buarque, afinal, tem as armas e as ferramentas do melhor da cultura brasileira, tendo nascido no seio dela, e soube dar vida ficcional a isso numa escrita sedutora, fluente mas não caudalosa, que permite muitas e suculentas camadas de leitura, o que deverá deslumbrar ólogos e istas em geral, sem deixar de atrair seu enorme leitorado sequioso do biscoito fino – no bom sentido – que Chico acaba de botar na roda (também no bom sentido).

Reinaldo Moraes, autor dos romances Tanto Faz, Abacaxi, Órbita dos caracóis e Pornopopéia,  lançado este ano pela editora Objetiva

Extraído do JB Online

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