Miro Lopes
é Jornalista, Integrante da Comissão de Liberdade de Expressão e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa
ÚLTIMOS ARTIGOS:
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A palestra de Cinco
(públicado em 27 de outubro de 2011)
A convite do jornalista Daniel Castro, o sociólogo Renato Cinco, do Movimento pela Liberação da Maconha, participou, dia 22/09, da reunião da Comissão de Liberdade de Expressão e Direitos Humanos (CLIeDH) da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), e expôs as razões da criação daquele instituto. Tão grande é a polêmica sobre o assunto, dividindo-se quanto à legalização das drogas ou a descriminalização defendida pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que os jornalistas Lênin Novaes (presidente da CLIeDH), Mário Jakobskind, Arcírio Gouvea, Alcyr Cavalcanti e Germando Gonçalves, questionaram algumas vezes a exposição de Cinco.
Segundo relato do primeiro secretário da CLIeDH, jornalista Wilson de Carvalho, Jesus Chediak, diretor de cultura da ABI, lembrou 1907 quando se proibia a venda do “pito de pengo”(maconha) e que “D.Pedro I, apelidado de Foguinho, queimava o dia inteiro.” Para o Chediak, a maconha deve ser liberada, desde que haja amadurecimento da sociedade e cada um tendo responsabilidade de seus atos. Foi levantada a hipótese de que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) poderia tirar a maconha da lista de proibições. Lembrou-se também que havia nos EUA, o “crack da bebida”, mas que desapareceu com a regulamentação.
Críticas e denúncia
O tema da palestra do sociólogo Renato Cinco, levou as críticas às operações para recolhimento de menores de idade usuários de crack, que vêm sendo feitas pelas polícias civil e militar, sob a supervisão da Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS), contrariando o próprio direito constitucional, não apenas os humanos. De acordo com denúncias que chegaram à CLIeDH, algumas abordagens e recolhimento de jovens, estão sendo feitas sem nenhum flagrante e apenas para averiguações na delegacia.
Os principais motivos se referem à colocação dos menores em albergues nada adequados em ambientes sem condições de acolhimento humano.
Nos abrigos, não há mesa de refeição ou área sequer para tomar banho de sol, com agravamento nos dias frios. Mais de 80 jovens, nove entre 11 e 15 anos, estão internados nos abrigos.
A CLIeDH propôs à direção da ABI uma carta de protesto, no sentido de, não apenas resolver de imediato as condições insalubres dos abrigos, mas, a médio prazo, criar clínicas especializadas em várias áreas da cidade e, ao mesmo tempo, criar estímulos para internações voluntárias. Afinal, jovens pobres, em especial, desejam se libertar do vício, conforme tem sido demonstrado em reportagens na TV, mas não o fazem por falta de recursos.
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Assassinatos de jornalistas e violência da Prefeitura causam indignação
(Publicado em 27/09/11)
1. É de assustar o relatório da Assembléia realizada neste mês, pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), enviado pelo jornalista Arcírio Gouveia, integrante da Comissão de Liberdade de Expressão e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (C.L.E.D.H./ABI). Principalmente pelos cinco assassinatos de jornalistas apenas neste ano, bem acima em relação a anos anteriores. Além de prisões, agressões, dois atentados, três casos de abusos cometidos por autoridades, 12 casos de censura, uma ameaça de morte e duas decisões judiciais contra os jornalistas. Também não faltaram manifestações em eventos como o de Campinas, quando o ex-presidente Luis Inácio “Lula” da Silva declarou que “vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como partidos políticos”.
2. A ANJ enfatiza também a preocupante a quantidade de eventos gerados a partir de iniciativas do Poder Judiciário: dos 34 ocorridos, nove corresponderam à censura imposta por decisões judiciais sendo três determinadas por juízes de |Justiça Eleitoral. Uma realidade muito preocupante, na opinião dos jornalistas Alcir Cavalcanti, Germando Gonçalves, Mário Augusto Jakobskind, Miro Lopes e Sérgio Caldieri presentes a última reunião da C.L.E.D.H./ABI, presidida pelo secretário Wilson de Carvalho, que sugeriu providências junto ao Governo Federal, por parte da ABI e demais órgãos ligados à comunicação de um modo geral. O secretário sugeriu também que se promova um seminário em nível nacional como mecanismo de pressão junto às autoridades. “Mais grave ainda é que tudo isso acontece em um País que se diz democrático. Ou não é?”, enfatizou Wilson.
3. Para Alcyr Cavalcanti, os assassinatos como o da juíza de São Gonçalo, Patrícia Acioly, e até agora, sem resultados na investigação, mesmo com suspeitos mais do que prováveis, indica que a impunidade é geral, não apenas contra jornalistas.
– O que é mais grave, que isso representa a banalização nas execuções de todo aquele que trabalhe com correção e dignidade. Em última análise, a crescente impunidade que já é, há muito tempo, marca registrada do Brasil”, disse Alcyr.
4. Outro problema “de extrema gravidade e raramente divulgado pela grande mídia”, foi lembrado por Alcyr e Wilson: a violência empregada pela Prefeitura do Rio em algumas remoções e despejos contra moradores que resistem, em alguns casos, até, por considerarem baixos os preços avaliados por suas casas. E quando se trata dos sem-teto, aumenta a violência. Para a Prefeitura, não importam os meios para a construção das várias vias para ônibus (quando deveriam ser destinadas à ampliação do Metrô), visando a Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016.
5. Em uma de suas edições de julho deste ano, O Globo confirma a arbitrariedade e desobediência às leis em remoções e despejos, sob a responsabilidade da Prefeitura. O que representa mais uma agressão aos direitos humanos.
A C.L.E.D.H. pede providências à ABI, com autorização do Conselho Deliberativo, no sentido de fazer uma representação junto ao Prefeito do Rio, Eduardo Paes. Há que se respeitar a lei e os direitos humanos dos cidadãos, os mesmos que pagam aviltantes impostos que estão possibilitando, inclusive, a realização de obras visando os megaeventos que se aproximam, argumenta Carvalho. De acordo com a Comissão, “não se pode mais aceitar que os governantes continuem também agindo ditatorialmente, fazendo o que bem entendem.”
6. No caso da Copa do Mundo e Olimpíadas, sempre com a alegação de exigências da Fifa ( que atua como poder paralelo mais importante que à Presidência da República, e para o qual o Executivo, inexplicavelmente acena a cabeça como vaquinha de presépio, segundo o repórter Miro Lopes) o que não procede em grande número de intervenções como a destruição do Maracanã, reformado em 2006, para uma reconstrução ao custo de R$ 1 bilhão, enquanto se continua a presenciar o verdadeiro extermínio provocado por falta de assistência médica, não apenas no Rio, mas em todo o País. Em última análise, mais uma agressão aos direitos humanos tão desrespeitados neste país, há décadas.
7. Mário Jakobskind entregou à Comissão, o relatório sobre a participação da ABI na delegação brasileira que iria para a Líbia a convite do governo, como observadores, para ver in loco o conflito de guerra que vive aquele país do norte africano. Jakobskind informou que a comitiva liderada pelos parlamentares Protógenes Queiroz e Brizola Neto, não pode ultrapassar a fronteira com a Tunísia (único caminho possível para Trípoli) em função da intensificação dos bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
8. Considerando os vários fatos que indicam o prestígio da ABI em várias esferas internacionais, e tendo em vista de que na Tunísia não foi diferente, o jornalista Mário Augusto sugere que o Conselho e a Diretoria analisem a viabilidade da criação de um Departamento de Relações Internacionais, que teria como objetivo primordial estabelecer laços com entidades representativas não só da imprensa, bem como da área de direitos humanos. Em anexo, o relato completo da viagem de Mário à Líbia, representando a ABI.
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Na busca da informação
(Publicado em 17/08/11)
“Não se pode confundir amizade com confiança,
o assessor não é uma babá…”
Diogo Kotscho, assessor de Kaká
1. Assessor de imprensa é moleque de recado, ou traficante de influência entre a imprensa e seus contratantes? Alguns colegas de imprensa os tratam assim; e a maioria dos contratantes os quer assados. Não acredito que assessor de imprensa seja moleque. E tráfico de influência é crime. Fazerlobby também deveria ser. Crime. Os lobbies praticados no Brasil, principalmente nas áreas políticas e públicas, são sempre o exercício vergonhoso e criminoso de tráfico de influência legitimado por interesses escusos. Um exercício tão criminoso quanto o que comete o poder público quando sonega informações, com desculpas (desculpa é confissão de culpa) sobre questões de segurança, quando usa o expediente do ‘segredo de Justiça’ e outras mentiras do gênero.
2. Assessor de imprensa deve, ou não, ser jornalista? Deveria. Com a desobrigatoriedade do diploma, pelo menos o assessor de imprensa deveria ter uma formação básica ou prática da profissão. Ou basta que seja relações-públicas, telefonista, recepcionista, moto-boy, babá etc.?! Todas as profissões dignas, algumas indispensáveis a uma equipe de assessoria de imprensa profissional e competente, até porque jornalista é jornalista e não relações-públicas, telefonista, recepcionista, moto-boy, nem babá?!
3. É impressionante, a autoridade com que certos jornalistas de veículos considerados poderosos se dirigem às assessorias de imprensa: pedem para marcar entrevista com o cliente, como se o jornalista fosse babá do ‘assessorado’. Por seu lado, o cliente, o assessorado, o patrão do assessor, que sempre se julga mais poderoso que a imprensa, também acha que a assessoria deve impor a entrevista, ou sugere plantar informações de seu interesse. Sempre escusas. Não custa repetir: tráfico de influência é crime. Fazer lobby é tráfico de influência com direito a comissões escabrosas. Crime hediondo, no mínimo.
4. Lamentavelmente, isso ocorre porque as empresas de Comunicação não investem em profissionais de jornalismo capazes de captar informações sem a contrapartida do “tráfico de influência”. Do troca-troca (Epa!), do dá cá e toma lá (aqui, o retorno é sempre menor) predomina em regra. Na busca da informação de interesse do veículo, mormente escandalosa, polêmica, aquela que garante primeira página, essa negociação, mesmo velada, é proposta. Essa história de que ‘meu veículo’ não paga por informação é balela. Que nome se dá a esse tipo de negociação?! “Você me informa o que eu quero saber, e eu publico o que Você precisa”. Suborno?! Pode ser!!!
5. Há picaretas nas duas pontas desse método. Parecem aqueles ‘tiras’ de filme policial que oferecem ao bandido uma vantagem para conseguir uma confissão ou uma informação. A ficção imita a realidade. Neste caso, há bandidos nas duas pontas do procedimento. Isso é tráfico de influência, troca-troca. Não sei não, troca-troca (aliança, acordos e similares) é coisa de política desonesta e de criminosos enrustidos.
6. Muitos jornalistas suam a camisa para produzirem um material jornalístico de verdade. E não se permitem a favores escusos, muito menos passam perto de assessorias de imprensa desnecessariamente. São profissionais nobres. Nada impede o bom relacionamento entre veículo e assessorias de imprensa. A qualidade da informação, o interesse social, a obrigação da Imprensa, a responsabilidade do jornalista são relevantes e, entretanto, não devem ser maculadas. Assessoria de imprensa são fontes de muitas informações preciosas à sociedade. Aí, o relacionamento é louvável.
– Por que o assessor de imprensa deve agendar entrevistas, e não a assistente, ou secretária do próprio personagem da entrevista?! Por que o assessor precisa visitar redações, promover almoços, jantares e não simplesmente encaminhar um material jornalístico de interesse social e público?
Simples, porque se pressupõe que os assessores de imprensa recebam verba para promover almoço/jantar e trocar figurinhas.
– Por que o material de assessorias que não estabelece esse ‘vínculo’, chega às redações, embora com conteúdo relevante, é engavetado ou jogado no lixo?
Simples, há jornalistas que não aceitam idéias nem sugestões por se considerarem “gênios” e auto-suficientes, até porque sempre julgam suas idéias e sugestões insuperáveis. Aí, vem o editor, que também se julga gênio insubstituível, e ‘bota água no chope’ do colega diplomado.
E o povo e o leitor que se danem!
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Jorge Coutinho, cinco décadas defendendo a cultura afrobrasileira
(Publicado em 06/08/11)
Nos anos de chumbo Jorge Coutinho produz, com Leonides Bayer, o espetáculo “Noitada de Samba”, realizado no Teatro Opinião (1971/1984), responsável pela divulgação da música dos compositores populares que a partir daí se tornaram conhecidos na elite, com um elenco fixo formado por Xangô da Mangueira, Baianinho, Babau da Mangueira, todos apadrinhados semanalmente, por convidados especiais como Nelson Cavaquinho, Clara Nunes, Lupicínio Rodrigues, Dona Ivone Lara, Cartola, Roberto Ribeiro, Mano Décio da Vila, Clementina de Jesus, Paulinho da Viola, Lecy Brandão, Carlos Cachaça, Jorginho do Império, João Nogueira etc. Acompanhando os sambistas estava lá conjunto Nosso Samba.
Mais do que um ponto, ou programa cultural e turístico, que atraiam ‘os gringos’ que não tinham acesso às escolas de samba – fora da temporada de preparação para o Carnaval – a “Noitada de Samba-Opinião” era considerada o grande foco da resistência à censura imposta pelo regime militar, tendo ficado em cartaz por 10 anos. Em razão desse movimento cultural e politizado Jorge Coutinho teve que se exilar na Argentina.
Dirigido pela sua então assídua freqüentadora e ativa colaboradora da produção do espetáculo, Cély Leal, a “Noitada de Samba” ganhou um registro cinematográfico e foi exibido na mostra Premiere Brazil, no Museu de Arte Moderna (MoMa), em Nova Iorque, mês passado (julho 2011). “Noitada de Samba” tem depoimentos de muitos artistas que cantaram pela primeira vez na Zona Sul no projeto, criado na década de 1970 pelos amigos Jorge Coutinho e Leonides Bayer. Inicialmente o que seria um curta-metragem reuniu tantas informações que se transformou no livro “Noitada de Samba Foco de Resistência” e também no filme homônimo.
Trajetória de lutas
Ator, produtor cultural, ativista do movimento negro, Jorge Coutinho, 77 anos, nasceu em São Cristovão, Zona Norte do Rio.“Desde 1959, quando tentaram barrar o meu direito de estudar no Conservatório Nacional de Teatro, por ser negro, que luto pela minha etnia, a democracia e a liberdade em meu País. Não é de hoje que estou na batalha. Não estou chegando agora, caindo de pára-quedas para assumir o SATED-RJ. Estou na estrada há muito tempo”.
Na infância, conheceu tempos difíceis, que a família enfrentava e logo começa a trabalhar como lixador em uma antiga fábrica de sapatos no bairro Triagem. Em busca novos mercados, ele fez curso de bombeiro hidráulico, profissão que lhe garantiu emprego no Copacabana Palace. Ao cumprir o serviço militar obrigatório, aprende também o ofício de bombeiro eletricista.
Nessa época Jorge Coutinho é apresentado, por sua avó paterna dona Hercília, integrante da Escola de Samba Capela, ao mundo das escolas de samba. É lá que ao assistir aos ensaios das grandes companhias artísticas, Coutinho descobre uma nova paixão e a profissão que realmente desejava seguir. Sempre obstinado, se matricula no Conservatório Nacional de Teatro e no Tablado. Em 1958 faz seu primeiro trabalho como ator em teatro: “Do mundo nada se leva”, ao lado de nomes consagrados.
Em 1960, Jorge Coutinho participa do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC/UNE), juntamente com Oduvaldo Vianna Filho, Arnaldo Jabour e outros, iniciando seu sonho de descentralizar a cultura sempre tão presente nas classes abastadas e escassas para as classes menos favorecidas. Coutinho se fez presente na criação do movimento do Cinema Novo e do Grupo Opinião, que fundou ao lado de Ferreira Gullar, João das Neves etc.
Carreira artística intensa
É no cinema novo, que Jorge Coutinho faz uma carreira marcante e alcança a televisão. De “Ganga Zumba” (1963/4) à “Chuvas de verão”, ambos dirigidos por Cacá Diegues, passando por “Cinco Vezes Favela” e “Navalha na Carne”, participou em mais de 40 filmes, e elege Biename seu melhor personagem, atuando ao lado de Ruth de Souza.
Da novela das oito “Passos dos Ventos’, de Janete Clair, à “Duas caras”, Jorge Coutinho deixou seu talento impresso na história das artes brasileiras. Já a primeira novela mostrou a singularidade do ator. A trama causou polêmica ao exibir o namoro interracial entre os personagens de Coutinho e Djenane Machado. Coutinho foi o primeiro ator negro a beijar uma atriz branca na TV.
De volta às origens que a avó Hercília lhe apresentou lá na adolescência, em 1975, Coutinho, liderado por Candeia, e acompanhado de outros bambas como Paulinho da Viola, Monarco, Rubem Confete, Elton Medeiros, Mauro Duarte, Guilherme de Brito, Alvarenga, Isaura de Assis, Jacira Silva, participa da inauguração o Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo, do qual foi presidente.
Em sua contínua militância em defesa da arte, cultura e da negritude, Jorge se reelegeu como presidente do Sindicato de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Rio de Janeiro, (2010/2012) com 65% de aprovação nas urnas sindicais.
No seu discurso de posse Coutinho destacou a longa luta que travou para chegar onde chegou:
“Desde 1959, quando tentaram barrar o meu direito de estudar no Conservatório Nacional de Teatro, por ser negro, que luto pela minha etnia, a democracia e a liberdade em meu País. Não é de hoje que estou na batalha. Não estou chegando agora, caindo de pára-quedas para assumir o SATED-RJ. Estou na estrada há muito tempo”.
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Hilton Abi-Rihan
(Publicado em 29/06/2011)
Capixaba de Mimoso do Sul, o jornalista e comunicador Hilton Abi-Rihan migrou para o Rio de Janeiro, há 54 anos, quando começou a escrever definitivamente seu nome no rádio brasileiro com seu reconhecido talento e sua bonita voz – com os quais estreou – ancorando as transmissões das eleições pela Rádio Continental – então uma verdadeira escola de reportagem radiofônica – para a qual ele contribuiu entrevistando personalidades da época e reportando fatos históricos.
– O chefe da reportagem gostou de mim e pediu minha transferência para o Departamento de Jornalismo. Ser repórter era o que eu mais queria! Aí minha vida começou a dar certo, conta ao jornalista Murillo Victorazzo.
Na mesma Continental, onde trabalhou com Wagner Luiz, Sérgio Cinelli e o produtor Manoel Alves, hoje responsável pela equipe de Carnaval da TV-Globo, Abi-Rihan coloca no ar outra faceta do seu talento – o de comunicador – comandando o programa “Frente Ampla”. Informativo, musical, dinâmico e alegre o programa se torna líder do horário. Depois veio seu primeiro programa específico de samba, o “Conversa de Bamba”. Esses foram o passaporte do garoto de 15 anos, que começou como locutor de alto-falante em Mimoso do Sul, para a Rádio Nacional – a mais importante emissora do País, – onde continuou a apoiar os sambistas, através do “Chamada Geral”, programa que comandou por quase uma década. Abi-Rihan também dirigiu durante 10 anos o rádio jornalismo da Nacional-Rio, comandando coberturas memoráveis, entre elas a visita do Papa João XXIII.
A vocação e o profissionalismo levaram Hilton Abi-Rihan para a televisão, tendo emprestado seu talento incontestável e bela voz às extintas tevês Continental, Tupi e RIO, – nesta apresentando o primeiro telejornal em cores da TV brasileira, como competente ancora e atento repórter que sempre foi. Abi-Rihan que viveu, então, a fase áurea do rádio, ingressa assim na fase áurea da televisão carioca, sem pastiche e falso glamour. Muito envolvido com a música, o samba e a MPB atualmente apresenta um programa denominado Samba & História pela Rede Boa Vontade – Sky, canal 23.
Mas foi durante sua temporada na Rádio Globo, que o nome e o vozeirão de Abi-Rihan atravessaram as divisas da Cidade Maravilhosa e os limites o Estado do Rio de Janeiro, tornando-o um símbolo do rádio brasileiro, apresentando o “Show da Madrugada”, com Washington “Apolinho” Rodrigues.
– Tínhamos uma liderança absoluta de audiência, maior que todas as outras emissoras juntas, rejubila-se, merecidamente.
Em seguida, veio uma temporada em novo endereço – Rádio MEC, onde apresentou a primeira fase o contido programa “Alô, Rio”, atendendo ao estilo da emissora educativa. Retornando à Nacional-Rio, com uma equipe ‘supimpa’, Abi-Rhian apresenta um novo “Alô, Rio” – com a espontaneidade e o dinamismo indispensáveis a um programa de rádio popular, mantendo a qualidade de origem.
– Abi-Rihan também foi para lá, porque ele fala essa linguagem mais popular. Lá ele está um pouco mais solto, fazendo aquele rádio vivo, pulsante. (Ele) chegou lá e contaminou, no bom sentido, a casa, e os repórteres estão fazendo questão de entrar no ar, com informações do que ocorre na cidade, fala Cristiano Menezes, gerente regional das rádios da Empresa Brasileira de Comunicação e responsável pela volta de Abi-Rihan à Nacional-Rio (AM 1130),comandando a nova fase do “Alo, Rio”, de segunda à sexta-feira, das 8 às 11horas,.
Abi-Rihan: um ser admirável
Maior do que o reconhecido e comprovado talento do radialista, jornalista e comunicador Hilton Abi-Rihan são suas virtudes pessoais: um ser humano admirável, que se dedica a fazer o bem, Abi-Rhian é amigos de todas as horas e extremamente leal aos seus colegas. Numerosos colegas de imprensa, artistas, compositores e cantores lhe devem gratidão. Muito deles revividos nas transmissões do programa “Alô, Rio”, relembrados em reportagens, ou provocando a lembrança deles com quadro “A música do dia” – uma melhor de três com sucesso de todos os tempos. Outros ainda vivíssimos – de corpo e alma – que Abi-Rihan coloca no ar e os traz novamente à mídia. Aliás, ajudar ao próximo é uma destacada virtude de seu caráter.
Exemplos de solidariedade são fartos. Um deles coloca Abi-Rihan entre um grupo de amigos de Ismael Silva, fundador da primeira escola de samba do Brasil, a “Deixa Falar”, hoje Estácio de Sá, o berço do samba. Com a criação da Passarela do Samba Professor Darcy Ribeiro, Ismael Silva reclamou de não ter sido brindado, pelo menos com um convite para a inauguração do famigerado (no bom sentido) Sambódromo. Abi-Rihan e seus amigos lideraram uma campanha para que Ismael Silva fosse convidado para o primeiro desfile da era Sambódromo. A desorganização, que sempre grassa nos eventos promovidos pelo poder público, barrou a entrada do notável convidado, que infelizmente morreu sem ver um desfile naquele espaço. Abi-Rihan tinha feito a parte que lhe coube como amigo e cidadão.
Sempre presente às transmissões dos desfiles das escolas de samba, Abi-Rihan sempre foi um grande entusiasta do samba e seus personagens. Idealizador e editor da Revista Beija-Flor de Nilópolis – uma Escola de Vida, com Ricardo Fonseca, Abi-Rihan criou o prêmio “Expressão do Samba”, com o qual presta sua homenagem aos compositores e sambistas libertando-os do cárcere do esquecimento; e com o qual saúda os que continuam defendendo a música popular brasileira com suas composições e interpretações.
A lealdade de Abi-Rihan também foi expressa através do samba, composto em parceria com Neguinho da Beija-Flor, “Menino pobre sonhador”, dedicado ao amigo Anízio Abrahão David, presidente de honra da Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis – campeã do desfile de 2011 com o enredo– “A simplicidade de um rei” – em homenagem a outro ilustre capixaba Roberto Carlos.
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Mestre Zu e o Dia da Imprensa
(Publicado em 07/06/2011)
“Os redatores que me perdoem, os editores que me desculpem, os diretores que não me ouçam, os diagramadores que não me queiram mal, os cronistas e colunistas, esses então, que não me atirem pedras, mas se todos eles um dia desaparecessem e só ficasse o repórter, o jornalismo continuaria vivo.” (Zuenir Ventura)
A imprensa brasileira tem naturalidade inglesa, mas legitimidade assegurada pelos propósitos do Correio Braziliense, por defender os interesses da população e as liberdades políticas e individuais, além de condenar a aristocracia parasitária do Reino e a exploração econômica de Portugal em relação ao Brasil. Este é argumento suficiente para que a Imprensa no Brasil seja celebrada no dia 1º de junho, data do primeiro número do Correio Braziliense, jornal editado pelo brasileiro Hipólito José da Costa e lançado em Londres, no ano de 1808.
A publicação foi proibida de circular no Brasil e Portugal em função dos artigos que criticavam a política do governo português. No entanto, o Correio Braziliense circulou de forma clandestina no Brasil e na metrópole portuguesa. Com 80 páginas, circulação mensal, o jornal encerrou sua carreira com 175 ‘fascículos’.
Diversos eventos movimentaram o Dia Nacional da Imprensa, em que se destacam a luta da categoria pela volta do diploma, extinto há dois anos por um ato equivocado do Supremo Tribunal Federal, e os 80 anos do jornalista e escritor Zuenir Ventura, festejados na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que aceitou a homenagem desde que integrasse uma agenda festiva mais ampla.
Propostas de emenda constitucional
Em nota divulgada no Dia Nacional da Imprensa, 1º de junho, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e Sindicatos de Jornalistas defendem a aprovação de uma legislação de conteúdo democrático que regule as relações entre os veículos de comunicação, os profissionais e a sociedade.
“Formação profissional é fundamental para garantir o direito da sociedade à informação qualificada”, diz nota. “E cabe à Câmara dos Deputados e ao Senado restituir aos jornalistas e à sociedade o que o STF suprimiu ao confundir direito de opinião com o exercício profissional do Jornalismo. As Propostas de Emenda Constitucional 386/09 – que tramita na Câmara – e 33/09 – que tramita no Senado – já têm pareceres pela sua aprovação e estão prontas para votação.
Neste 1º de junho, comemorar o Dia da Imprensa significa, também, valorizar o Jornalismo, os jornalistas e a sociedade. Por isso pedimos que o parlamento brasileiro não renuncie à sua prerrogativa republicana, legisle e aprove as Propostas de Emenda Constitucional (PEC) do diploma”, acrescenta a nota, que foi distribuída pelos integrantes da comitiva de jornalistas que circulou em diversos gabinetes parlamentares na Câmara dos Deputados e no Senado.
Participaram do corpo a corpo os jornalistas Jane Vasconcelos (representante do Sindicato dos Jornalistas do Acre), César Wanderley (Amazonas), Osnaldo Moraes (Pernambuco), Márcia Quintanilha e Alcimir do Carmo (São Paulo), Edson Weber (Paraíba), Valdice Gomes e Fátima Almeida (Alagoas), Sônia Regina Gomes (Rio de Janeiro), Kardé Mourão (Bahia), Luiz Carlos de Oliveira (Piauí) e José Nunes (Rio Grande do Sul).
Como na sexta-feira (dia 17/6) não há sessão no Congresso Nacional, a mobilização para sensibilizar os parlamentares pela votação da PEC em defesa do diploma foi marcada para o dia 15 de junho.
Homenagem a Zuenir Ventura
Atendendo a solicitação do Mestre Zu, como o octogenário mestre do jornalismo é chamado por seus alunos de sempre, a ABI integrou as comemorações do Dia da Imprensa à celebração pelos seus 80 anos. Avesso a comemorações, Zuenir Ventura explicou os motivos que o levaram a abrir exceção no aniversário de 80 anos:
— A ABI é nossa Casa, com sua história de luta pelas liberdades. Quando entrei aqui hoje, senti uma emoção muito grande. Nunca pensei que um dia eu estaria na ABI como personagem e para comemorar meus 80 anos. É uma honra que vale a pena qualquer sacrifício, como o de me expor, para celebrar esta data junto com a ABI, afinal, não é qualquer um que faz 80 anos. Fiquei muito feliz e rendido. Só estou tenso por não gostar da exposição, mas imagina se eu gostasse. (risos).
Ao abrir a solenidade e saudar o homenageado, Pery Cotta sintetizou a generosidade e a grandeza humana do Mestre Zu:
– Fui um dos muitos discípulos de Zuenir Ventura no início dos anos 1960, na Tribuna da Imprensa. Sua esposa, Mary, era nossa companheira de redação. Nesta época, Zuenir já era um mestre, ou melhor, o ‘Divino Mestre’, como os repórteres do jornal o chamavam, não só pela capacidade intelectual, pelo texto espetacular, pelo dom natural da escrita, mas também por ser uma das figuras mais doces, mais cordiais, mais amigas que conheci em toda a minha vida. Ele sempre tinha uma palavra de carinho, de atenção, principalmente com o repórter que estava começando a carreira. Ele ensinava a escrever e, acima de tudo, ensinava a importância da liberdade de imprensa para a democracia. Não foi à toa que ele nasceu na data em que se comemora o Dia da Imprensa.
A homenagem incluiu a entrega de uma placa alusiva que lhe foi entregue pelo cartunista Ziraldo, com quem, juntamente com Hélio Pellegrino, Gerardo Mello Mourão e Osvaldo Peralva, Zuenir dividiu cela nos chamados anos de chumbo. Tido como o articulador da imprensa do Rio para o Partido Comunista, o mestre foi preso após o AI-5 e passou três meses entre o Sops, o Dops, o quartel da PM Caetano de Faria e o do Exército em Harmonia. No mesmo dia de sua prisão, seu irmão e sua mulher, também jornalista Mary Ventura, foram levados pela polícia e permaneceram presos durante um mês. Zuenir deixou a prisão em março de 1969 com o aval de Nelson Rodrigues, que conseguira a libertação de Hélio Pellegrino, mas este condicionou sua saída à do companheiro de cela, como registrou o escritor em seu saite.
Zuenir Ventura agradeceu a homenagem e destacou a centenária trajetória da ABI.
– A história da ABI é de luta pela liberdade de imprensa, e metade desta história coincide com a minha carreira jornalística, com os meus 50 anos de jornalismo. Eu acompanhei alguns desses momentos gloriosos da ABI. Não houve neste País um jornalista ameaçado que o presidente da ABI não viesse em seu socorro e em sua defesa com palavras e ações, sublinhou o mestre.
Antes do encerramento, Cícero Sandroni discorreu sobre o papel histórico da imprensa na construção do processo democrático no País:
— Doutor Barbosa Lima Sobrinho sempre dizia que a História do Brasil é a história da imprensa do Brasil. Não há um momento na história deste País, desde a Colônia até hoje, em que a imprensa não tenha exercido papel decisivo na concepção dos fatos. (…) Por incrível que pareça, junto com a República Velha veio a censura à imprensa no Governo Marechal Teodoro, no Governo Floriano, que governou por estado de sítio, no Governo Artur Bernardes, que também governou por estado de sítio, e sobre o qual Doutor Barbosa escreveu o livro fundamental “O Poder da Imprensa”. Toda esta atividade da imprensa na história do Brasil é celebrada no Dia da Imprensa, quando aniversaria Zuenir Ventura, herdeiro dessas lutas, um desses guerreiros pela liberdade de imprensa. Hoje é o aniversário de Zuenir, mas é também o aniversário de todos nós que trabalhamos na imprensa. Muitos jornais, não vou citar aqui, estiveram do lado errado na ditadura. Sabemos que em 1964, quase toda a imprensa apoiou o golpe, mas o Zuenir não, o Ziraldo, também não. Os jornalistas não apoiaram o golpe, os jornalistas foram perseguidos, foram presos, torturados, muitos foram mortos. A história da imprensa dos últimos 50 anos, ou talvez mais, se confunde com a história de Zuenir Ventura. E isso, como dizia Doutor Barbosa, é a história do Brasil. Parabéns, Zuenir!
Pery Cotta encerrou o evento exibindo um exemplar do jornal O Globo do dia 1 de junho de 2011, cuja capa tinha estampada uma manchete comemorativa dos 80 anos de seu colunista, Mestre Zu, que foi aplaudido de pé pelos presentes, entre os quais Adail José de Paula, Arcírio Gouvêa Neto, Jorge Antonio Bastos, Domingos Meirelles, lma Martins e Maria do Perpetuo Socorro Vitarelli. A página foi doada à ABI para fazer parte do seu acervo de imprensa.
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O Porto da História
(Publicado em 11/05/2011)
O Porto Maravilha é cercado de encantamento. Apesar de fatos recentes o trazerem novamente à mídia, muita gente ainda não se inteirou do projeto. O traço é sedutor, mas não contemplava atenções maiores a nossa história – embora quaisquer escavações para fins de fundação exijam a participação e avaliação do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Os arqueólogos lá estavam. Ao retirarem pedra sobre pedra- Eureca! -revelou-se a história, que na verdade nos revela também nossas origens. Sob a primeira camada de terras e pedras, os arqueólogos do Iphan deram de cara com o Cais da Imperatriz e logo sob as pedras imperiais, descobriram o Cais do Valongo, o porto dos escravos. Ambos tesouros arqueológicos do séc. XVIII e XIX.
A partir de 1758, cerca de um milhão de negros escravos (dos quase seis milhões embarcados para o Brasil, entre os que sobreviveram a travessia do Atlântico), foram desembarcados no porto do Valongo. No entorno, se estabeleceu o mercado de negros, com idade entre 10 e 19 anos, a maioria de origem bantu, oriundos dos portos da Guiné e Congo. Ao longo dos últimos 200 anos, o mapa da região sofreu algumas modificações quase radicais. Sobre o Cais do Valongo foi construído em 1843, o Cais da Imperatriz para receber a noiva de Dom Pedro II, a imperatriz Tereza Cristina. Quase um século depois, Pereira Passos dando novo desenho à cidade, aterrou o cais imperial.
Em duas oportunidades, um defensor do resgate e da preservação da história dos negros e a formação do brasileiro através da presença africana com a chegada dos escravos, o estudioso de temas afro-brasileiros, jornalista, radialista e sambista Rubem Confete alertou o prefeito Eduardo Paes sobre a necessidade de maiores cuidados com aquela área denominada de Pequena África - parte da Praça Mauá (rua Marechal Floriano – ex-Rua Larga) e os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, - pelo valor histórico que aquele pedaço de chão encobre.
Num primeiro momento, o prefeito mostrou-se sensibilizado e falou na criação de um museu a céu aberto. Um novo desenho se propôs com os canos, fiações (telefônicas e canais de TV), galerias fluviais e outras obras, desviando-se desses sítios arqueológicos.
Paralelamente à importância histórica da área, o valor turístico do Porto Maravilha acendeu uma fogueira de intenções sócio-políticas que não se restringem à prefeitura do Rio, mas aos interesses de sobrevivência de quem terá que enfrentar investidores poderosos e pressões covardes os excluíndo daquele espaço não só para a finalização do projeto de revitalização da região portuária do Rio, mas principalmente pela implantação de um novo conceito de negócios.
O Centro Cultural Pequena África – que conta com o estudioso Rubem Confete – quer ir além do resgate dessa história, também abraçada por muitas instituições congêneres, como a Fundação Palmares, Conselho Estadual dos Direitos do Negro (Cedine) etc. Há que se corrigir e também se preservar a história depois do fim da escravidão, que inclui as grandes revoluções sociais promovidas pelos habitantes da Pequena África – primeira morada dos africanos e seus descendentes que chegaram ao Rio – na formação sócio-econômica do Rio, que estão sob os escombros da negação histórica sobre a nossa verdadeira origem e formação humana.
Centro Cultural Pequena África tem como seu objetivo principal resgatar, preservar os valores histórico-culturais e celebrar a ancestralidade, através das personalidades que foram vitais às questões da sobrevivência e cidadania. O Pequena África reverencia personalidades como o jornalista e babalorixá Dom Obá II d’África, o batuqueiro João da Baiana, o partideiro Aniceto do Império, o sindicalista Ézio Cruz (séc. XX) e o fundador da Sociedade dos Moços Pretos, Cândido Manoel Rodrigues, defensores de primeira hora da arte, cultura, uso e costumes, que fazem àquele pedaço de chão, denominado de Pequena África, um patrimônio histórico a ser preservado e exaltado.
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Prêmio Nacional Abdias Nascimento: R$35 mil em prêmios
( Publicado em 13/05/2011)
Com a presença da ministra da Igualdade Racial, Luiza Barros, e de representantes de várias entidades populares, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro lançou, no seu auditório João Saldanha, o Prêmio Nacional Jornalista Abdias Nascimento, que tem como objetivo estimular a cobertura jornalística sobre temas relacionados à população negra, além de impulsionar nas redações em todo o País, a prática de um jornalismo plural com foco na promoção da igualdade racial. Entre os temas sugeridos para concorrer ao Prêmio estão a saúde da população negra, intolerância religiosa, juventude negra, ações afirmativas, empreendedorismo, desigualdades, direitos humanos, relações raciais, políticas públicas, populações e comunidades tradicionais e discriminação racial.
Um dos principais ícones da luta contra o racismo, Abdias Nascimento, de 97 anos, está internado na UTI do Hospital dos Servidores no Centro do Rio de Janeiro, e foi representado por sua mulher Elisa Larkin Nascimento e seu filho engenheiro Henrique Cristóvão Garcia Nascimento, que receberam do jornalista Carlos Alberto de Oliveira Caó uma placa que reproduz a ficha de inscrição do homenageado, como sócio do sindicato, datada de 1947.
O evento contou com a participação da jornalista Miriam Leitão e do professor Muniz Sodré que falaram sobre “A questão negra na mídia contemporânea”. À propósito, além da baixa representatividade no mercado de trabalho, os jornalistas negros também enfrentam o racismo nas redações. Na década de 1990, o repórter Tim Lopes, ainda no Jornal do Brasil, afirmou “não existir um só repórter negro, mulato, moreno-claro ou cafuzo que, por trás da máscara da simpatia, não tivesse sofrido brincadeira discriminatória pelos colegas brancos”. Diante desse quadro, o debate sobre a questão racial ganhou força nos sindicatos. A partir dos anos 2000, as Comissões de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojiras) e o Núcleo de Jornalistas Afrobrasileiros do Rio Grande do Sul se organizaram em seus respectivos sindicatos.
Também foi exibido um documentário que narra a trajetória política de Abdias Nascimento, que, em 1931, participou da Frente Negra Brasileira. Em 1944, Abdias fundou o Teatro Experimental do Negro, formando uma geração de atores e atrizes negros, entre eles Ruth de Souza, Jorge Coutinho, Léa Garcia, Antonio Pompeu, Luiza Maranhão, Zózimo Bulbul etc. É o fundador do jornal Quilombo (1948), então utilizado para articular e divulgar a Convenção Nacional do Negro Brasileiro. Exilado nos Estados Unidos, voltou 13 anos depois, sob a égide da Lei da Anistia, se elegendo deputado federal e senador substituindo o professor Darcy Ribeiro. Abdias Nascimento é professor emérito da Universidade de Nova York, professor conferencista da Universidade de Yale e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O concurso é uma iniciativa da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-Rio) e surge em 2011, declarado pela Organização das Nações Unidos como o Ano Internacional dos Afrodescendentes.
A sorte está lançada
As inscrições de trabalhos para o Prêmio Nacional Jornalista Abdias Nascimento estão abertas até dia 19 de agosto e jornalistas profissionais de todo o País estão aptos a participar com matérias, sobre temas relacionados à população negra, que tenham sido veiculadas (ou publicadas) entre 1º de Janeiro de 2009 a 30 de abril de 2011.
A melhor reportagem de cada uma das sete categorias – mídia impressa, televisão, rádio, mídia alternativa ou comunitária, fotografia, Internet e categoria especial de gênero – com destaque para as reportagens com foco nas demandas femininas, – receberá R$ 5.000,00 como prêmio. Os vencedores serão anunciados em uma grande festa que ocorrerá em novembro, mês de comemoração da Consciência Negra.
Uma das metas principais do Prêmio Nacional Abdias do Nascimento é valorizar as iniciativas no jornalismo brasileiro que estejam contribuindo para a compreensão do racismo como um problema estrutural no campo das desigualdades e dar visibilidade às soluções inovadoras para a superação do racismo no País.
Desde 2003, a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Rio de Janeiro lida com questões relacionadas a discriminação racial no mundo do trabalho secundada pela educação. Atualmente, a equipe é formada por Angélica Basthi (coordenação), Sandra Martins (coordenação), Miro Nunes (coordenação), Isabela Vieira (integrante) e Camila Marins (integrante).
Mais informações www.premioabdiasnascimento.org.br
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O CRITÉRIO DAS HOMENAGENS
(Publicado em 02/05/2011)
Há uma definição que ratifica o significado amplo, irrestrito e moralmente louvável do gesto de se prestar uma homenagem. É um ato de cortesia, com deferência, e mais do que isso um ato de respeito. Este significado atribuído atualmente ao preito procura fazer jus, a quem o presta e a quem o recebe. Por mais que alguns inconseqüentes rejeitem nobres honrarias, mesmo que singelas, elas se impõe, em princípio pela credibilidade do autor da homenagem, e principalmente, pela reputação moral e qualidades pessoais do homenageado.
Logo após, a trágica morte do repórter Tim Lopes, as homenagens póstumas foram promovidas, inicialmente, pelas entidades de classe e, depois, se multiplicaram pelo País afora, nomeando prêmios, títulos, escolas, ruas etc. Primam todas pela apropriada e atual definição. É um ato de respeito, especialmente ao ser humano.
O Google tem prestado um precioso serviço na garimpagem de honrarias as quais a família do repórter tomou conhecimento ao longo dos últimos nove anos de sua morte a se completar em 2 de junho, e não há espaço para listar todas as gentilezas que refletem muito bem o respeito, a independência e a honestidade de quem as prestou.
Nesta garimpagem, deparamos com a questão do critério de escolha. No saite Comunique-se, que informava sobre a Comenda Tim Lopes proposta pelo vereador Celio Moreira (sem partido) à Câmara Municipal de Uberlândia/MG, em 2003, o jornalista Deusmar Fabiano Motta se manifesta: “Espero que a Comenda Tim Lopes seja entregue a quem realmente mereça, se não cairemos novamente no ridículo de sermos escolhidos e não termos cara para recebê-la”, afirma Motta ao lembrar que ele mesmo, como assessor de comunicação da vereadora Jerônima Carlesso (sem partido), sugeriu o acréscimo de uma emenda a fim de destacar o trabalho das três categorias (televisão, rádio e mídia impressa) e não o de apenas uma como constava no projeto original. No único comentário, Pedro Diedrichs [03/06/2003 - 18:40] (Óbito-Obituário) acrescenta “Temos que ter o cuidado para que Tim Lopes não venha a ser um “Luiz Eduardo Magalhães” que na Bahia tudo tem o nome dele… Respeitado o fato, sendo ele Tim um mártir da ‘impresa’, não queiramos agora dizer que não temos outros nomes de tão igual projeção para servir de nome de comenda. Temos de ter o cuidado com os oportunismos políticos, que buscam os nomes em evidência para se evidenciarem!”
A preocupação da família do repórter e que às vezes representamos nas homenagens ao Tim Lopes, é que toda honraria reconheça virtudes e talentos, com independência e isenção. Uma homenagem a mais nunca é pouco para o acervo que estamos reunindo. Sempre será bem-vinda, qualquer que seja a atividade do laureado, considerando que Tim era bem-visto em todas as áreas pelas quais circulava.
Foi ouvindo a qualificação dos homenageados pela Comenda Tim Lopes – com medalhas e diplomas – e os esclarecimentos sinceros de Eliézer Tavares (PT) e Juarez Vieira (PSB), proponentes dessa segunda edição* da premiação pela Câmara Municipal de Vitória/ES, não há dúvida que tanto os profissionais laureados ano passado, quanto os deste ano, receberam a honraria com júbilo pelo reconhecimento de que se investe o prêmio.
Nesta segunda edição, foi realizada na quarta-feira, dia 27, e os proponentes Eliézer Tavares e Juarez Vieira permitiram indicações de seus pares para que não houvesse juízo de valores quando a isenção da escolha.
Na ocasião, Eliézer entregou a Comenda Tim Lopes ao jornalista Ferreira Neto, e diplomas de honra ao mérito aos jornalistas Fabiano Mazzini, Gilda Soares Miranda, José Roberto Santos Neves e Tinoco dos Anjos. O vereador Eliézer Tavares destacou: “Tim Lopes foi um ícone da coragem com sua forma de fazer jornalismo, audaciosa e arriscosa, como dizia o poeta. Eu tenho certeza de que todos os homenageados estarão felizes com a comenda.”
Este colunista recebeu, pelo homenageado, a Medalha de Honra ao Mérito: “É uma honraria póstuma, com validade de ter sido feita em vida, porque através dela, Tim continuará vivo.” (Íntegra)
A jornalista Rose Duarte também recebeu a comenda Tim Lopes e os jornalistas Handerson Siqueira, Suzi Faria e Guilherme Klaws F. M. Costa foram diplomados pelo vereador Juarez Vieira. Ao ocupar a tribuna, Vieira ressaltou “Estamos reunidos hoje em uma homenagem não só dos vereadores, mas da população de Vitória. O jornalista tem uma importância inestimável no futuro democrático deste país.”
O radialista e jornalista Amaro Neto recebeu a medalha de Neuza de Oliveira. Os jornalistas Carla Nascimento, Diego Casagrande Soares, Tiago Américo Pereira de Souza e Leonel Vasconcelos Ximenes foram diplomados pelos vereadores Esmael Almeida, Fabrício Gandini, Namy Chequer e Sérgio Magalhães.
A mesa de honra da solenidade foi formada pelo presidente da Câmara Municipal de Vitória, Reinaldo Mattiazzi (PT), os vereadores proponentes, Eliézer Tavares e Juarez Vieira, a secretária municipal de Comunicação Elizabeth Kfuri, a presidente do Sindicato dos Jornalistas Suzana Tatagiba, o presidente da Associação Espírito-Santense de Imprensa (AEI) José Angelo Fernandes, e os jornalistas Miro Lopes e Rose Duarte.
(*) Na primeira edição, proposta pela vereadora Neuzinha de Oliveira ano passado, os agraciados com a Comenda foram Nuno Moraes, repórter policial do jornal Notícia Agora, Daniela Abreu, apresentadora do Jornal ESTV, da TV Gazeta e Eduardo Santos, repórter policial e apresentador do programa “Rádio Patrulha”, da rádio Gazeta AM. E, com o Diploma de Honra ao Mérito, foram agraciados Paulo César Dutra, José Antônio Nunes Couto (Janc), Taís Hirschmann, Susana Loureiro, Fernando Mendes, Fábio Luiz Malini de Lima, Isabela Ribeiro Bessa, Daniele Henriques Coutinho, Andréa da Silva Lopes, Cláudio Luiz Zardini Ribeiro, Luiz Carlos Pereira e José Carlos Teixeira Bacchetti.






