FEICHAS MARTINS

 

Feichas Martins

é Jornalista, professor de Comunicação Social e Mestre em Ciências Políticas.

 

 

ÚLTIMOS ARTIGOS:

  • Mitos e incógnita da globalização

A globalização, fenômeno que estudiosos classificam como posterior à multinacionalização e internacionalização, tem seus mitos que começam a desmoronar.

Houve previsões de que a nova economia mundial teria quatro características, duas delas que se confirmam: Dominação pelo sistema financeiro e investimento e progresso das tecnologias de comunicação e informação. As outras duas não se confirmam: Baixo custo dos transportes de pessoas e cargas e a emergência de três centros de capitalismo transnacionais: Estados Unidos, Japão e Europa.

Começando pelos transportes, segundo classificação feita pelo Ministério do Desenvolvimento, Comércio e Indústria do Brasil, o sistema de transporte apresenta as seguintes características, em termos de custos:

O transporte modal (rodoviário) geralmente apresenta baixo custo de implantação, elevado custo operacional e alto consumo de óleo diesel; o transporte ferroviário alto custo de implantação, baixo custo operacional e pequeno consumo de óleo diesel; o dutoviário (para gases, líquidos e sólidos granulares) apresenta elevado custo de implantação e baixo custo operacional; o transporte marítimo baixo custo de implantação e operacional; o hidroviário e aquaviário podem ter baixo custo de implantação e operacional, dependendo da via natural, mas podem ter elevado custo de implantação e operacional, em períodos de seco e baixo calado; o transporte aeroviário apresenta baixo custo de implantação e elevado custo operacional.

Assim é que o transporte intermodal, reunindo mais de uma modalidade, seja para mercadorias, ou seja para pessoas, tem seu custo variável conforme as condições estruturais e climáticas  em cada país ou região,tornando-se difícil uma garantia de que os custos mundiais dos transportes na globalização se tornariam baixos.

O transporte de pessoas na Europa e nos Estados Unidos (que utilizam muito as ferrovias) é relativamente de custo baixo, mas tal não acontece nos países em desenvolvimento, principalmente nas modalidades rodoviária e aeroviária, como é o caso do Brasil, país de grande dimensão territorial, que optou pelas rodovias e aerovias, em detrimento das ferrovias.

Há uma campanha de intensificação do transporte aéreo, mas qualquer cidadão disposto a viajar de avião tem a sensação de que o custo ainda é elevado, principalmente do transporte aéreo regional, e as condições operacionais dos aeroportos ainda requerem muitos investimentos.

Quanto ao transporte rodoviário, fiscalizado pelo Conselho Nacional de Transportes Terrestres – CNTT-, apesar de fortemente subsidiado, o custo das passagens ainda é elevado, a manutenção e a segurança das rodovias precárias no interior, os pedágios em algumas rodovias são altos e o monopólio exercido por empresas no setor favorece o negligenciamento das condições operacionais.

O transporte intermodal no Brasil e outros países em desenvolvimento esbarra na precária adaptação dos portos e vias aquaviárias e lacustres, o que contribui para a elevação do denominado “custo Brasil” para os comércios interno e externo. Pelo menos é a radiografia que obtive visitando alguns portos brasileiros.

O segundo mito abalado, desde a crise de 2008, é o dos três grandes centros capitalistas. Os Estados Unidos enfrentam problemas com o dólar e pesada dívida externa e interna, além de outros graves problemas sociais internos (violência urbana, desemprego, custo de vida, etc.). A Europa idem, assistindo a insolvência das suas principais economias e da “zona do Euro”. O Japão enfrenta o problema da alta valorização do iene, o envelhecimento da população e altas taxas de suicídio e os cenários prospectivos para recuperação da crise nas suas exportações são confusos.

Não havia previsões para que a China se transformasse na segunda economia mundial e outros países membros dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) ultrapassassem alguns países europeus como a França, Reino Unido e Alemanha, como novas potências econômicas, em função das suas riquezas naturais e produção de “commodities”, com destaque para os alimentos e petróleo.

Os três gigantes econômicos (EUA, Europa e Japão) agora dependem visceralmente do desempenho da China e procuram se adaptar à nova geografia do poder econômico, voltando-se para os detentores de matérias-primas de regiões como América do Sul e Ásia.

Os chineses enxergam na palavra “crise” o sinônimo de oportunidade, mas a crise de 2008, a “crise dos subprimes”, gerada pelo efeito dominó da quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, dos Estados Unidos, longe de significar oportunidade, virou um pesadelo para os poderosos e uma incógnita para a tal globalização.

 


  • Uma proposta de Filosofia de Defesa Nacional

Desenvolver uma Filosofia de Defesa Nacional para os tempos atuais é um desafio ousado, considerando-se que são muitos os empreendimentos teóricos, doutrinários, científicos, e ideológicos a respeito desse tema, os quais apresentam a Paz como objetivo e variável independente.

Como escapar do esforço feito por Imannuel Kant –um moderno divisor de águas- de uma tentativa de abordagem metafísica sobre o tema da paz universal, espécie de utopia que a História, desde os seus primórdios, desfaz em sucessivos e incontáveis relatos de conflitos entre grupos, tribos, aldeias, cidades, comunidades, nações, Estados-nações e a atual sociedade global?

Será possível, pelo método dialético que o grego Zênon nos legou, o enquadramento do tema Defesa na Filosofia, cuja essência consiste em indagar, levando-se em consideração que qualquer inquirição estaria sendo formulada sobre hipotética ausência da Paz –(espécie de tese ou uma antítese da guerra,embora  Raymond Aron considere que “ausência de paz não é a guerra”)? E qual seria a síntese dessa dialética Guerra e Paz?

Farei essa tentativa, sabendo, de antemão, dos meus riscos incalculáveis de ferir a lógica e a razão e incidir no campo meramente conjectural, ainda que eu tenha o método conjectural como poderosa ferramenta filosófica.

Ainda que se a variável independente a ser considerada fosse a Guerra, a mesma dificuldade permaneceria, porque ainda não se encontrou a referida síntese, mas a escolha da Paz como variável é de minha preferência em decorrência dos estudos mais sistematizados sobre o tema Paz, visto isoladamente, realizados nas academias e centros especializados internacionais, um dos quais o Instituto Internacional da Paz.

Relatório divulgado, no ano passado, pelo Instituto Internacional de Pesquisas da Paz de Estocolmo (Sipri) revela que as compras de armas pela América do Sul cresceram 150% nos últimos cinco anos na comparação com o período entre 2000 e 2004, enquanto no mundo o aumento foi de 22%.

Estadistas, militares e diplomatas do mundo inteiro se debruçam sobre a arte da guerra, inspirados em Sun-tzu, Heródoto, Tucídides, Políbios, Flávio Josefo, Arquimedes, Anibal, Alexandre, Maquiavel, Moltke, Clausewitz, Jomini, Napoleão, Rommel, Donitz, etc. e tantos outros generais, estudiosos, doutrinadores, teólogos, teóricos, filósofos, ideólogos, cientistas, profetas, historiadores, escritores, sociólogos, politólogos e até autores bíblicos (pois a Bíblia, no Antigo Testamento, é pródiga em relatos de guerras).

Adotando, abstratamente, a Paz como variável independente, desprovida de seu caráter dialético em função da Guerra, acredito que possa trabalhar a idéia de formulação de uma hipotética síntese à dialética Guerra versus Paz, colocando a Defesa como variável dependente dessa hipotética síntese.

Vamos à tal síntese. Não há Guerra ou Paz sem a presença do elemento racional, o Homem. Isoladamente, o Homem é objeto dos estudos da Antropologia. Quando se reúnem dois ou mais homens, se tornam objetos de estudos da Sociologia – a expressão de Augusto Comte para a sua “física social”.

Independentemente de seus traços étnicos, raciais, culturais, o Homem apresenta características básicas universais, que se projetam no seu comportamento em vida coletiva: Os sentidos (paladar, tato, olfato, audição, visão), instinto de vida ou morte, sensações ou percepções extrasensoriais e (por que não?!) a kantiana Razão Pura.

Vivendo em grupo, comunidade ou sociedade, os homens se interrelacionam e interagem entre si, material e imaterialmente, com essas características, acentuadas ou minimizadas pela influência de fatores exógenos do ambiente que os cerca (clima, topografia, reprodução, bebidas, comidas, símbolos, vestuário, abrigo, crenças, mitos, etc.)

Os produtos dessa interação se projetam na estrutura e na conjuntura de vida. Em termos estruturais, resultam na composição das instituições (conjunto de normas de conduta caracterizadas, ao longo do tempo e do espaço, pelo ânimo da permanência, que regulam o processo de organização política e, consequentemente, de hierarquização do poder). Daí resultam também os órgãos institucionais, que corporificam simbolicamente as instituições e com estas, conjuntamente, o própriosistema político.

Esse sistema político é a nossa síntese hipotética da dialética guerra e paz, porque sempre existirá, na presença ou na ausência de uma das duas variáveis, e, como toda síntese, comporá nova tese.

Considerando-se a paz como variável independente, as possibilidades de conflito entre nações dependem de, pelo menos, oito variáveis dependentes, positivas e negativas, geradas pelo sistema político, pois, como afirma a Filosofia, “de duas coisas, uma é sempre diferente da outra”… As positivas são: 1.Fundamentos do Poder;2.Constituição (Carta Magna) Pacífica; 3. Democracia; 4.Universalidade. As negativas são: Baixa potencialidade; 2 Constituição agressiva; 3.Autocracia; 4.Isolacionismo.

Poderíamos resumir tais possibilidades em: Sistema Político (Poder Nacional, Vontade Política; modelo federativo, sistema de governo, regime político e sistema representativo (subsistemas eleitoral e partidário) e cultura (formas idiossincráticas de pensar, sentir e agir) nacional.

O poder nacional pode ser de alta ou baixa capacidade; a vontade política se define no modelo constitucional de cada país, que tanto pode prescrever o preparo para a defesa (Constituição do Brasil, por exemplo) quanto para o ataque (Constituição dos Estados Unidos); o regime político pode ser democrático ou autocrático, e a cultura nacional pode ser universalista ou isolacionista. Essa cultura é tão característica, que rejeita importações de outros modelos de sociedade, aceitando apenas “sugestões” adaptáveis a qualquer nação ou país (como, por exemplo, as idéias de necessidade vital de suprimento de água e de comida e de perpetuação da espécie).

Confrontadas as variáveis positivas e negativas, tendo a paz como variável independente, elas se constituem potencialmente em fatores de guerra expansionista (conquista do mais fraco pelo mais forte); de beligerância, por disputa do poder político interno; de guerra por motivos religiosos e culturais; guerra por motivos terroristas; submissão ativa (ou rendição) por absoluta dependência; dependência sem submissão (guerrilhas e guerras de libertação); submissão por dependência imprevisível (retração); submissão passiva ou resignada ao mais forte; submissão estratégica para política pendular; guerra-relâmpago e conspiração permanente para guerra oportunista (estratégia do lobo e do leão quando a caça apresenta sinais de fraqueza); composição para neutralidade ou alinhamento conveniente.

A essa síntese transformada em nova tese, o Sistema Político, surge o CaráterNacionalcomo antítese. O Caráter Nacional é a “intuição” desse sistema político, espécie de mão invisível do Espírito regente da Alma e do Corpo dessa nação – talvez o que Kant denominaria “Razão Autônoma”. Um fator, portanto, metafísico, que pode tanto enfraquecer o poderoso dominador quanto fortalecer subitamente o oponente frágil ( caso do  Vietnã do Norte enfrentando os Estados Unidos).  Eis o novo embate dialético, cuja síntese será a Defesa.

Minha proposta de uma Filosofia de Defesa consiste, portanto, na seguinte questão: Em situação de paz, qual é a possibilidade de se elaborar uma Política de Defesa Nacional que concilie em sua plenitude o Sistema Político e o Caráter Nacional, considerando-se a Paz como variável independente, em face da necessidade de o poderoso se prevenir contra um súbito enfraquecimento e do frágil oponente se preparar para a situação de seu súbito fortalecimento?

(Ensaio de minha autoria publicado recentemente pela “Revista Filosofia”, edição nº 33, Editora Escala, São Paulo)

  • Pará votou como “cantão suíço”

A população do Pará disse um “não” às oligarquias e um “sim” à democracia, ao rejeitar, por 67% dos votos, no plebiscito do último domingo, a divisão do estado em três: Pará, Carajás e Tapajós. Pesquisa da Datafolha, na véspera do plebiscito, antecipara o resultado de apenas 33% de aprovação e 58% de rejeição, sendo que esse último número subiu para 67% na apuração final.

Se a divisão fosse aprovada, seria o início de um processo de redivisão territorial do Brasil que culminaria no controle do Senado Federal pelas oligarquias do Norte/Nordeste/Centro-Oeste, criando um novo pólo de poder administrativo unicameral de fato, pois os próximos presidentes praticamente governariam por intermédio do Senado, que representa as unidades federativas, e não da Câmara dos Deputados, que representa o povo.

Essa divisão do Pará, contudo, é um teste importante, um “balão-de-ensaio”, para a votação de projetos no Congresso Nacional criando mais seis estados e três territórios. Afirma-se que a estratégia de unificação da campanha, adotada pelo publicitário Duda Mendonça, é a causa da rejeição da divisão paraense pela população. Ou seja, se a campanha para criação do Carajás e do Tapajós fosse separada, o resultado seria outro.

Evidentemente, os erros cometidos agora não se repetirão em possíveis novos plebiscitos sobre a redivisão territorial, ainda mais estando em jogo interesses do poder central do País, que, no momento, passa por um processo de concentração – o que Golbery denominava “sístole”, metáfora com o processo cardíaco, quando o coração se contrai para liberar o sangue.

Essa “diástole” aparente (quando o coração se descontrai), que á a criação de novos estados, abriria caminho para a maior concentração de poder político já vista na história do Brasil, no período republicano, pois o bicameralismo atual passaria a ser de fachada, com o Senado dando as cartas e o povo (a Câmara dos Deputados) endossando.

Algum anjo da democracia andou sobrevoando o estado do Pará e iluminando a população sobre a conseqüência de aprovação da proposta. Não tenho dúvidas, as cartas estavam lançadas e, a qualquer momento, voltarão à mesa, porque a tentação pelo poder é grande…

Na área acadêmica, no estudo dos mecanismos da democracia direta – plebiscito, referendo, voto destituinte, “recall”, etc., impera certo ceticismo quanto à eficácia democrática do emprego desses mecanismos em países sem tradição democrática, como o Brasil, onde a manipulação pelos donos do poder é mais atrativa.

Na enquete que esse blog realizou, a democracia brasileira chegou a ser qualificada de relativa, mínima e até periclitante. Nos cantões suíços, onde tais mecanismos são empregados com rigor, o risco de manipulação é o mínimo, até mesmo em prol da memória do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau, o defensor original da democracia direta que se praticava na Grécia e Roma antigas.

Se os paraenses votaram conscientes ou não das conseqüências da divisão para a democracia brasileira, ou se votaram por instinto de defesa contra o pauperismo a que ficariam relegados o Pará e o Tapajós,são “outros trezentos” – como se diz na linguagem vulgar -, mas o fato é que votaram como cidadãos suíços.

  • Jogador Sócrates, um “intelectual orgânico” do futebol

    (Segunda Feira, 5 de Dezembro de 2011)

Este blog não tem preconceito contra nenhum tema vinculado à política, independentemente de aspectos ideológicos, razão pela qual considero interessante a análise da “democracia corintiana” em si, a propósito do falecimento de Sócrates, seu idealizador em 1982, no clube de futebol Corinthians, de São Paulo, que acaba de conquistar o título de campeão nacional.

Médico por formação acadêmica, nascido no Pará, genial jogador de futebol e intelectual orgânico da classe futebolística, na verdadeira concepção gramsciniana, Sócrates liderou um movimento de autogestão democrática no Corinthians, em 1982, ao lado de jogadores como Vladimir (sindicalista), Zenon e Casagrande (atual comentarista esportivo).

Tudo era decidido na base do voto, desde a contratação de jogadores e técnicos, demissões, locais de concentração, e esse voto era igualitário entre dirigentes, funcionários e jogadores. O resultado é que esse modelo levou o Corinthians, que vinha de campanhas ruins, a dois títulos do campeonato paulista, além de restaurar as finanças do clube.

Em 1984, com as mudanças no futebol do mundo inteiro e a exportação desmedida de jogadores para o exterior, que resultaram em vertiginosa queda na qualidade do futebol não só do Brasil, mas dos demais países sul-americanos (Argentina e Uruguai em destaque), o modelo da “democracia corintiana” se exauriu.

Alguns críticos dizem que a “democracia corintiana” fracassou. São os mesmos que vituperam contra a democracia como regime de governo em qualquer país. Há modelos históricos cujo valor maior não consiste no prazo de validade, mas no simbolismo que carregam e que perdura como experiência válida, ainda mais na política, onde, contraditoriamente, não se admitem experiências sem impunidade.

Acho importante focalizar a experiência corintiana com base numa entrevista de Sócrates poucos dias antes de sua morte, quando ele afirmou que não acompanhava muito a vida do clube, mas, em nenhum momento, se desprendeu da sintonia com o seu principal patrimônio, os milhões de torcedores corintianos. “Ser corintiano –disse- é um estado de espírito”.

Sócrates construiu na política mais do que muitos políticos profissionais, e poderia ser classificado perfeitamente como um teórico da política, pois a teoria em si é reveladora, e Sócrates contribuiu muito para revelar ao Brasil a oportunidade de restauração da força popular pelo voto.

Demonstrava, em diversas entrevistas, que era intrinsecamente apaixonado pelas massas e não gostava de ser enquadrado como um homem de esquerda. Tanto que seu treinador preferido era o extremo conservador Telê Santana, da Seleção Brasileira, e mantinha excelentes relações com a republicana  cidade de Ribeirão Preto, reduto das oligarquias dominadoras de um dos maiores pólos de produção de açúcar e álcool do País.

Quem freqüenta o “Pingüim”, um dos locais preferidos de Sócrates e até hoje templo do chope em Ribeirão Preto, pode colher junto aos garçons inúmeras e pitorescas estórias do “Magrão”. São turistas de boa capacidade aquisitiva e cidadãos da elite da cidade que reverenciam o local.

Não só pelo futebol que praticou, mas pelo seu idealismo político, Sócrates se tornou a figura mais conhecida e unânime de Ribeirão Preto (que o revelou) e uma das maiores da nova geração brasileira. Ele construiu com a cabeça e os pés seu discurso existencial.


  • Mais oligarquia e menos democracia: Nova equação de poder no Brasil

    (publicado em 18 de Novembro de 2011)

O plebiscito, importante mecanismo da democracia direta, será acionado mais uma vez no Brasil para que a população do Estado Pará, no próximo dia 12, decida se o estado deve ou não ser desdobrado em mais dois estados, os de Carajás e Tapajós.

Não tenho dúvida de que esse plebiscito desencadeará uma profunda mudança política no País, pois acredito que a divisão será aprovada, em razão do viés mudancista presente na atual conjuntura política brasileira e da aplicação, pelas elites dominantes, da equação básica da governabilidade: G(governabilidade) = L (legitimidade) + E (eficácia). Com legitimidade não se obtém necessariamente eficácia, mas com eficácia é certa a obtenção da legitimidade.

O Pará, outrora um estado próspero, hoje está relegado à 11ª posição entre os 27 estados da federação, com a nona população do País (7,1 milhões de habitantes), responsável por cerca de 40% do PIB da região norte e 1,88% do PIB nacional.

Ocorrendo a divisão, os dois estados ficarão com seis vagas no Senado (três para cada) e, pelo menos, 16 vagas para deputados federais (oito para cada). O Pará, com população remanescente de quatro milhões de habitantes, vai reduzir sua bancada atual de 17 para 14 ou 12. Carajás, com 1,4 milhões de habitantes e 39 municípios, e Tapajós, com 1,7 milhões e 27 municípios, açambarcarão 83% do atual território paraense.

O limite constitucional de 513 deputados federais será mantido, fazendo-se a redivisão das cadeiras mediante cálculo efetuado pelo Tribunal Superior Eleitoral. Grandes e médios estados perderão cadeiras, preservando-se os números dos menores estados. Tendência de perda que se amplia, à medida que tramitam projetos para a criação dos estados de Maranhão do Sul, Araguaia, Mato Grosso do Norte, São Francisco e Gurguéia, além dos territórios do Oiapoque, Rio Negro, Juruá e Solimões.

A equação do poder nacional via representação política, com essa redivisão territorial que se desencadeia, torna-se muito clara: É mantido, ou pouco alterado, o número de deputados federais, mas se amplia o número de senadores, em benefício das regiões norte, nordeste e centro-oeste, e o Senado, com seu poder revisional das decisões da Câmara – característica do sistema bicameral – passa a ser a pedra-noventa das decisões políticas, além de abrigar ex-presidentes, ex-governadores, ex-ministros e uma nova geração de políticos formados pelos partidos de esquerda no poder. Como é o caso de Sarney, do Maranhão, eleito pelo Amapá.

O Sul e Sudeste democráticos – com cerca de 110 milhões de habitantes, conforme dados recentes do IBGE-, que atualmente detêm a hegemonia representativa na Câmara, perderão muito poder de decisão em benefício das sinecuras oligarcas que vão sendo criadas nas demais regiões federativas (que somam cerca de  82 milhões de habitantes).

Maior governabilidade com mais oligarquia e menos democracia- eis a resultante dessa reengenharia representativa, através da qual os próximos presidentes governarão o Brasil.

  • O “day after” da zona do euro seria pesadelo global

    (publicado em 17 de novembro de 2011)

“A mais alta das torres começa no solo”, segundo ditado chinês, que utilizo aqui por analogia com a situação atual da União Européia, composta por 27 países e às voltas com uma crise econômico-financeira sem precedentes.

Essa crise, que pode ter seu ápice já no primeiro semestre do próximo ano,  é política, segundo o economista Eric Heyer,do Observatório Francês de Conjunturas Econômicas, e pode arrastar até a Alemanha, caso a Itália também não consiga pagar sua dívida,o que contaminaria de imediato a França e os impolutos alemães.

A torre é a Alemanha, que dita as regras com a sua economia ainda forte, e o solo é a Grécia, que, na falta de vento, vem remando nos últimos cinco anos para fugir da moratória. Se a Alemanha  não concordar que o Banco Central Europeu intervenha, será o fim da zona do euro.

Mas, essa decisão é política, conforme Heyer, porque os alemães têm fobia pela inflação e temem que uma ajuda do Banco Central afrouxe as medidas de austeridade que devem ser tomadas pela Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália, etc. As medidas de austeridade, por outro lado, podem piorar os combalidos índices de crescimento de toda a zona do euro.

Discordo quando alguém afirma que a Grécia, com cerca de 11 milhões de habitantes e PIB (323,7 bilhões de dólares) que corresponde à metade do PIB do estado de São Paulo, não tem peso para provocar uma crise global, embora esteja provocando. A Grécia é o solo da civilização ocidental e a Alemanha a torre, com 82 milhões de habitantes e PIB de 3,3 trilhões de dólares.

O legado da Grécia ao mundo ocidental não tem preço: Se aquele país falir, a civilização ocidental vai junto, porque quase todos os princípios sociais, econômicos, políticos, militares e religiosos que temos no mundo ocidental vieram da Grécia Antiga.

Roma teve influência dos gregos, que ocupavam a antiga região da Itália denominada Magna Grécia, e coube a Cícero, o grande tribuno e filósofo, inspirado nos gregos, repassar ao mundo a filosofia política dos gregos, os princípios republicanos, seus modelos institucionais, seus preceitos religiosos, etc. O Império Romano persiste de outras formas no mundo atual, jamais igualado como modelo de conquista e manutenção do poder político. E Roma é a capital da Itália e sede do Vaticano. Eis porque ninguém quer ver a Itália soçobrar nesse vendaval.

É curioso como países pequenos em território são considerados por alguns críticos como países insignificantes em termos globais. É também o caso da Suíça, que, além de ser o berço do filósofo Rousseau, pai da democracia direta e inspirador do socialismo marxista, criou ordenações originais de exércitos, armas de guerra sofisticadas,o canivete suíço, o plebiscito, o governo de diretório e religioso, o “ferrolho” no futebol, o queijo especial, a neutralidade política, o relógio de alta precisão, a guarda do Vaticano, o sistema bancário seguro e, ”last but not the least”, gerou Calvino, talvez o maior pensador religioso moderno.

Grécia e Roma , pelo seu passado e pelo que a cultura greco-romana proporcionou ao mundo, e Suíça, pelo gênio e a disciplina do seu povo, três países com virtudes exaltadas por Maquiavel em seu livro “A Arte da Guerra”, são sociedades que merecem o maior respeito das maiores potências.

A Grécia vale muito mais do que o pacote aprovado para sua ajuda financeira pelo Fundo de Estabilização Financeira da União Européia. Não vai resolver de imediato a crise grega, e é bom que a União Européia prepare outras medidas de socorro aos gregos, de forma preventiva, porque senão terá que fazê-lo de forma compulsória, porque a Grécia é credora do mundo, assim como a Itália, que balança-mas-não-cai, e a Suíça, que vai sempre de vento-em-popa…

Se não for debelada, essa crise européia afetará o mundo inteiro em 2012, ano que promete muita agitação política, econômica e social, em função até mesmo das previsões dos escatologistas e estudiosos do Apocalipse, que são tão divulgados, a ponto de se criar um comportamento teleológico mundial para o “day after” real ou apenas cinematográfico.

  • Os EUA continuam sem rival (II)

    (Publicado em 25 de Outubro de 2011)

A religião cívica, expressão que vem de Rousseau, não é centrada na alma individual, mas na corporação cívica chamada nação, uma espécie de patriotismo religioso, que tem calendário próprio de rituais e marcadores específicos para as datas memoráveis dos Estados Unidos (duas delas as da Independência, 17 de setembro de 1787, e do Dia de Ação de Graças, comemorado na quinta-feira da quarta semana de novembro).

Importantes para a democracia são os movimentos religiosos de várias correntes protestantes de ação e assistência social e o associativismo praticado por clubes de serviço (que tanto impressionou Antonio Gramsci) promotores de valores e princípios republicanos tais como liberdade, igualdade, fraternidade, democracia e justiça social e de outras práticas idealizadas pelos “founding fathers”, os 74 subscritores da Convenção de Filadélfia em 1787.

Joseph  Nye aponta o desgaste que os Estados Unidos vem sofrendo pelo uso, nos últimos anos, do “hard power”, o poder bruto, a ação militar, para garantir que a globalização seja “americanocêntrica”. O país, segundo esse autor, tem usado pouco seu poder de atração cultural e ideológica (“soft power”).

Em decorrência dos empreendimentos militares, seus elevados custos, perdas de vidas, os Estados Unidos correm o risco de enfraquecimento da religião cívica, risco esse agravado pelo baixo crescimento econômico (PIB de 14,6 trilhões de dólares), balança comercial desfavorável, endividamento externo (13,45 trilhões de dólares) e interno (12,9 trilhões de dólares) em larga escala e tendência à desvalorização do dólar.

Li recentemente que elevado número de negros está deixando de votar e permitindo que o espaço eleitoral maior seja ocupado por brancos, que assim elegem seus representantes de forma majoritária e estabelecem a agenda política. Sendo o voto facultativo, os negros estão se omitindo politicamente, e isso não é bom para a democracia. A eleição de Barack Obama pode ser interpretada como uma tentativa do “establishment” para estimular o eleitorado negro.

Immanuel Wallerstein, investigador da Universidade de Yale, afirma que, durante 200 anos, os Estados Unidos conquistaram considerável quantidade de crédito ideológico, que estão gastando depressa.

Sim, por conta de decisões esdrúxulas em sua política externa, os Estados Unidos vêm sofrendo desgastes. O antiamericanismo tem crescido no mundo inteiro (em detrimento do “soft Power”, e a população, já começa a se impacientar e cobrar mais eficiência nas políticas públicas sociais.

A secretária de Estado Hilary Clinton começa a falar em reajustar o enfoque da política externa estadunidense para a economia, a exemplo do que fazem alguns países emergentes, numa clara demonstração de que Washington não pode ignorar olimpicamente que a situação econômica dos Estados Unidos compromete seu crédito de liderança.

Nenhum desses problemas mencionados afeta o peso específico dos Estados Unidos. No próximo artigo, mostrarei o tabuleiro político internacional, que ainda apresenta a hegemonia dos Estados Unidos, inconteste, para esse século, mesmo com possíveis adaptações, a médio e longo prazos, no sistema cratológico (unipolar,bipolar,tripolar,multipolar,etc.).

Surgiu no mercado um tipo de brinquedo genial, o neocube, contendo 216 esferas de neodímio (uma liga metálica) magnetizadas, que permite ao manipulador dar as formas que desejar ao objeto, como num passe de mágica. Mas, uma coisa permanece imutável: a força magnética como base do funcionamento desse brinquedo. A certa temperatura (80 graus) ou diante de algum tipo de impacto forte, as esferas se desgarram.

Comparo esse neocube ao sistema de poder mundial, que sempre muda de forma, mas sem perder seu ponto central de estabilidade, no caso atual, os Estados Unidos, que é a principal fonte geradora do magnetismo que une as esferas (250 países), o capitalismo interdependente.

  • Os EUA continuam sem rival (I)

( Publicado em 17 de Outubro de 2010 )

Pretendo escrever aqui três artigos justificando minha convicção de que não há, ainda, potência no mundo que se iguale aos Estados Unidos ou que seja capaz de ameaçar sua hegemonia nesse século, apesar de vários paradoxos vividos pela sociedade estadunidense e do crescimento da China, que às vezes é apontada como a liderança emergente.

O que começou como ideal expansionista transformou os Estados Unidos em potência hegemônica, mas essa condição, a meu ver, decorre de uma vocação alimentada por certos valores cívicos e interesses de várias nações, hoje entrelaçados num capitalismo interdependente, que tornam essa liderança não apenas um objetivo nacional, mas, sobretudo, uma responsabilidade mundial, compartilhada, que muito tem custado à população daquele país, mas que não pode ser renunciada ou recusada.

Os Estados Unidos exercem sua hegemonia hoje por delegação do sistema internacional, que subsidia a “pax americana” porque sabe que a derrocada dos Estados Unidos vai gerar fraturas profundas nos sistemas europeu e asiático, um descalabro geral que pode ameaçar seriamente a paz mundial. Uma quarta guerra poderia devastar a humanidade, tamanho o arsenal de armas disponíveis nas mãos de potências e de grupos terroristas que fazem a chamada. “guerra dividida”.

O momento histórico, esse século, revela que liderança ou hegemonia não é condição que se reivindique. No caso dos Estados Unidos, ela veio com intencionalidade, mas também por delegação de outros países (claro que vários se opõem), como se fosse o corolário da história dos estados nacionais e da evolução do capitalismo , atrelada aos princípios morais e éticos desencadeados pela Revolução Francesa com base na liberdade, na igualdade e na democracia, hoje ampliados ao princípio da justiça social.

O presidente James Buchanan, em 1857,em sintonia com as ideias de John Sullivan sobre o “Destino Manifesto”, revelou a vocação imperial dos Estados Unidos: “A expansão dos Estados sobre o continente americano,desde o Ártico até a América do Sul, é o destino da nossa raça(…) e nada pode detê-la.” Sete anos depois, o presidente Abraham Lincoln proclamou o compromisso dos Estados Unidos com a defesa da Liberdade e da Democracia, em seu discurso no Cemitério de Gettsburgg.

Imbuídos do espírito da Colúmbia que inspirou “O Progresso Americano” de John Gast, dez anos após o discurso de Lincoln, premidos por grande depressão econômica, os estadunidenses iniciaram a sua arrancada internacional que os colocou, após a primeira e segunda guerras mundiais, ao topo da liderança mundial.

Essa hegemonia quase absoluta, escudada num poderoso complexo industrial militar, começa a ser questionada por estudiosos do poder e historiadores, tais como:

Paul Kennedy, “Ascensão e Queda das Grandes Potências”; Josep Nye, “O Paradoxo do poder americano”; Immannuel Wallersteim, ”O Declínio do Poder Americano” ; Paulo Nogueira Batista Jr.,”O triste fim de Wall Street”, Folha de São Paulo, em 2/11/2008, entre muitos outros autores, alguns inspirados  na história do Império Romano  escrita por  Edward Gibbons(“Declínio e Queda do Império Romano”), e   J.C.Stobart (“A grandeza que foi Roma”).

Sim, os impérios nascem, vivem e desaparecem, ao longo de ciclos atípicos, sob uma análise sincrônica e diacrônica da história, como se a razão estivesse com Heráclito, o filósofo grego que dizia que tudo muda a todo instante. Mas, Parmênides, que dizia que nada muda, também é bafejado pela razão, quando os estudos sobre os impérios até hoje surgidos revelam que o Império Romano até hoje é incomparável.

Se assim o é, o Império Romano não deixará de sê-lo nunca, tais os seus desdobramentos até os dias de hoje, desde a implantação da “pax romana” por Octávio Augusto, em 46 a.C.,o esplendor  do Monte Palatino nos primeiros 250 anos, quando o império alcançou 100 milhões de habitantes e arregimentou 300 mil soldados, até  a queda formal em 476,com o “bárbaro” Odoacro se apoderando da capital.

Assim como os impérios surgem de um esforço hercúleo de certa civilização decadente visando à sua sobrevivência de outra forma, como afirma Toynbee, em seu “Um Estudo da História”, os impérios começam a ruir quando deixam de se dedicar ao bem-comum.  Gibbons considera que o Império Romano até durou muito, e comenta: “… a força das antigas instituições e idéias, presente de certa forma no próprio sangue de cada romano, conseguiu que se mantivesse vivo o Império muito tempo depois de ele ter perdido sua razão de ser.”

Não há, portanto, um modelo imperial comparável ao de Roma, cujos desdobramentos estão presentes no próprio modelo dos Estados Unidos, que podem ser avaliados mais a fundo se a variável independente de análise for a presença do Cristianismo, seja católico ou protestante.

Porventura, alguma civilização inspirada em Buda, Maomé, Zoroastro e algum outro líder se alevanta no horizonte visível para suplantar o Cristianismo? Não creio, mesmo com o avanço considerável do Maometismo e a propagação da forma republicana de governo.

Os Estados Unidos constituem um império que tem alma, a “religião cívica”, que põe a bandeira à frente de tudo, e esse detalhe pode decidir o seu futuro, porque essa alma faltou ao Império Romano,segundo Stobart: “O império era um colosso à procura de uma alma”.

  • Especialistas alertam para ameaças potenciais ao Brasil

( Publicado em 11/10/2011)

(Matéria reproduzida do site “Portugal Digital”)

Brasília – Embora não se identifique nenhuma ameaça concreta de curto prazo à integridade do país, o Brasil precisa levar em conta ameaças potenciais ao traçar a sua estratégia de segurança nacional. A recomendação foi feita por especialistas na área de defesa que participaram de audiência pública promovida pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE), dentro do ciclo intitulado “Rumos da Política Externa Brasileira (2011-2012).”

O general Luiz Eduardo Rocha Paiva, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, defendeu maior integração entre a diplomacia e a defesa nacional. Ele lamentou que as lideranças militares brasileiras tenham sido, como observou, “alijadas do núcleo decisório de Estado”. E alertou que as “áreas de fricção” internacionais começam a aproximar-se da costa ocidental da África e do Atlântico Sul.

É necessária uma estratégia, na opinião do general, para proteger os aquíferos do país, seus minerais estratégicos, sua biodiversidade, petróleo e gás. Para ele, o estado de Roraima já pode ser considerado um alvo de ameaça, assim como a região da foz do Amazonas. Ele lembrou ainda a fronteira do Brasil com a Guiana Francesa e com dois países – Suriname e Guiana – muito ligados a potências europeias que integram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

“As Guianas são uma cabeça de ponte da Otan. Precisamos encarar os conflitos enquanto eles são ainda apenas possíveis e fazer o possível para que não se tornem prováveis, pois aí já seria tarde demais. Defesa não se improvisa”, afirmou Paiva durante o painel sobre “O papel das Forças Armadas”, ao qual compareceram diplomatas de países como Cuba, Venezuela, Irã e Índia.

O poder de influência da Otan também foi ressaltado por João Quartim de Moraes, professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele recordou que a organização não foi dissolvida após o fim da Guerra Fria. Ao contrário, alertou, ela se fortaleceu a mostrou “maior agressividade do que tinha mostrado até então”. Em vez do período de paz que se esperava no início da década de 90, disse o professor, teve início uma “sequência quase ininterrupta de agressões abertas e descaradas”, como parte do que chamou de “recolonização planetária” pela Otan.

“É perceptível uma ameaça ao Brasil do bloco da Otan? “Não. Mas devemos desencorajar expectativas de alguém que queira apoderar-se daquilo que nós temos e os demais não têm. Ou então renunciamos à política externa independente”, disse Quartim.

O consultor Joanisval Brito Gonçalves, do Senado Federal, lamentou o desinteresse dos formadores de opinião, no Brasil, a respeito do tema da defesa nacional. A seu ver, falta à sociedade brasileira uma “percepção clara” das ameaças às quais o Brasil estaria submetido.

O presidente da comissão, senador Fernando Collor (PTB-AL), recordou que, na época de seu governo, no início da década de 90, imaginava-se que o século 21 seria marcado apenas por guerras comerciais, o que “infelizmente não tem sido possível”, como observou. Ele ressaltou, por outro lado, que não foram os países emergentes, neste início de século, os responsáveis pelos “dissabores” provocados pelas crises econômicas mundiais de 2008 e de 2010.”Não fomos nós que criamos a crise. Foram os países mais ricos, que sempre souberam de tudo”, disse Collor.( As informações são da Agência Senado).

  • O dono da chave do cofre dita as regras

( Publicado em 27/09/2011)

A elaboração do orçamento público é uma arma poderosa para qualquer governo, pois permite ao Poder Executivo, apoiado por sua bancada no Congresso Nacional, o controle da agenda legislativa.

Não é difícil constatar esse processo, mas valho-me da minha experiência profissional e, principalmente, de excelente estudo realizado por Sérgio Praça, que defendeu tese de doutorado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo – USP-, em 2010, sobre o tema “A evolução de instituições orçamentárias no Brasil, 1987- 2008”.

Praça considera o controle da agenda legislativa como um “mecanismo” através do qual o Executivo brasileiro mantem certas instituições que lhe interessam, observando que:

“A estabilidade do Orçamento Autorizativo no Brasil, ao longo de vinte anos da democracia brasileira pós-Constituição, é paradoxal,se considerarmos que a barganha política possibilitada pelo Orçamento Autorizativo em torno de emendas orçamentárias encontra fortes críticos e que a idéia de implementar o Orçamento Impositivo é recorrente na pauta de reformas orçamentárias no país.”

De fato, quem se encontra na oposição radical ao governo não aceita pacificamente esse controle da agenda legislativa pela via orçamentária e vive pregando o Orçamento Impositivo, porque sabe que, dificilmente, seus pleitos serão atendidos, pois o critério político é aplicado na liberação ou contingenciamento de verbas. E, às vezes, nem liberação e nem contingenciamento, mas, simplesmente a não-decisão. O Executivo contingência dotações e retém liberações financeiras para direcionar o orçamento segundo seus próprios interesses e conveniências.

Voltando às considerações de Sérgio Praça, “avaliar o controle da agenda política pode ser um bom método para analisar qual a extensão dos poderes de cada ator ou grupo político para manter ou alterar arranjos institucionais vigentes. O estudo das não-decisões é fundamental para entender dinâmicas institucionais, pois  as não-decisões mascaram um processo que é dinâmico e conflituoso.”

E sublinha, numa de suas conclusões: “Atualmente, o Orçamento Autorizativo fornece “vantagem distributiva” para os membros da coalizão governista, pois permite que seus membros tenham mais emendas parlamentares individuais executadas do que os oposicionistas. Outra vantagem do Orçamento Autorizativo é que permite ao governo calibrar a execução orçamentária de modo a extrair maior apoio no Plenário para suas propostas legislativas”.

O orçamento anual sempre é aprovado no apagar das luzes da sessão legislativa, em sessões que, muitas vezes, se estendem até a madrugada, quando sonolentos deputados e senadores, prefeitos municipais, assessores parlamentares, assessores legislativos dos ministérios, lobistas de empreiteiras, secretários parlamentares, todos no Plenário da Comissão, tentam até o último instante, convencer o relator do orçamento a adotar emendas aditivas ou supressivas, e mesmo manter o que já conquistaram no texto.

Mesmo depois de o texto ser aprovado, outro “tour de force” é liberar as verbas junto ao Governo, porque, como diz o ditado popular, “Deus manda a farinha, mas o diabo leva o saco…” Tem aquele também: “Pouca farinha, meu pirão primeiro…” E mais um, implacável, da cultura política, forjado por Getúlio Vargas: “Aos meus amigos tudo; aos meus inimigos a lei.”. Só que, no Orçamento Autorizativo, o Executivo é mais pragmático, para manutenção e ampliação do poder: “Aos meus amigos tudo; aos meus inimigos nem a lei”.

O Governo, que tem um batalhão de especialistas em todas as manobras possíveis de calibragem da execução orçamentária, vai adotando medidas “a priori” e “a posteriori”. Essa questão da verba da saúde, por exemplo, é uma jogada “a priori” com vistas às eleições municipais do próximo ano. Aprovar a Emenda 29 sem especificar a origem da verba para a saúde é um cheque em branco para o Governo arrecadar, contingenciar, liberar e até redirecionar recursos para outras rubricas que considere mais rentáveis politicamente.

  • Positivismo rege poder no Brasil

(Publicado em 03/08/2011)

O gradualismo revolucionário para a conquista do poder pelos socialistas, tendo como epicentro os segmentos culturais da sociedade civil cooptados pelo intelectualismo orgânico, conforme doutrina formulada por Antonio Gramsci, é o tema dessa análise, a partir da conclusão de vários críticos liberais de que o referido processo está em pleno curso, e com inequívoca eficácia, no Brasil e em outros países latino-americanos.

Já escrevi sobre o processo de desmarxização em curso, no mundo inteiro, a partir da desintegração da república socialista soviética e a queda do Muro de Berlim, e o conseqüente impulso às idéias de Gramsci, que já vinham minando o Marxismo-Leninismo desde algumas décadas.

O Brasil atual é um laboratório das idéias de Gramsci, afirmam críticos como Olavo de Carvalho, Sérgio Augusto de Avelar Coutinho, Anatoli Oliynik, etc., e, sob os governos do PSDB e do PT, as esquerdas conseguiram se estruturar para ficarem décadas no poder e até consumar, no momento oportuno, a implantação do socialismo utópico ou comunismo. Tenho minhas dúvidas sobre tal processo.

Gramsci influenciou pelos seus discípulos a chegada ao poder das esquerdas no Brasil, com os governos do sociólogo Fernando Henrique Cardoso ( mais da linha de Eduard Bernstein) Lula, Dilma, etc. Essa é a interpretação geral do milagre que é atribuído a Gramsci, mas, na realidade, o santo se chama Augusto Comte, o pai da  sociologia,que defendia a renovação das instituições e que teria influenciado o filósofo italiano a pregar a mudança dos pensamentos e dos costumes(gramscianismo).

Em primeiro lugar, não duvido de que há um núcleo de discípulos do novo profeta italiano, centrado no Foro de São Paulo, articulando e trabalhando a consolidação do poder pelas esquerdas na América Latina, com razoável competência, mas recorro há uma máxima de Marshall Mc Luhan, o grande comunicador canadense visionário da “aldeia global”, segundo a qual toda iniciativa de transformação que se defronta com a cultura de uma sociedade se torna vã.

Se não se defronta, não é proposta de revolução, mas, sim, de reforma ou só inovação. E, sob esse enfoque, certo estava mesmo Lenin, que pregava, como via principal da revolução, a conquista do poder pela violência, em parte ao estilo da Revolução Francesa, mas essa provou que o terror não é tão eficaz para a manutenção do poder.

A própria revolução bolchevista, de caráter urbano, e a revolução chinesa, sob o comando de Mao-tsé-Tung, partida da zona rural, ambas centradas na conquista do aparelho estatal, conforme a doutrina marxista-leninista, não lograram implantar o comunismo, e atualmente essas sociedades se abrem para o capitalismo.

Hoje, não há forma e sistema de governo que prescinda da participação popular, nem na Alemanha ou no Japão, cujas instituições políticas modernas evoluíram de forma vertical, conforme relata Barrrington Moore, em sua obra “Origens da Ditadura e da Democracia.” Esses dois países fizeram grandes esforços políticos para se atualizar ao mínimo necessário da denominada democracia participativa.

O Estado republicano-parlamentarista alemão e o Estado monárquico- parlamentarista japonês permanecem fortes, mas os órgãos de representação política se tornaram mais participantes.  A condição geopolítica desses dois países (a Alemanha com várias fronteiras e o Japão perto da China) recomenda a sintonização com o povo, lição aprendida durante a Segunda Guerra Mundial.

O processo de globalização exige o mínimo de democracia, e com democracia qualquer tipo de revolução se torna mais complexa, seja qual for o processo doutrinário, porque a cultura política não é permissiva, mas, sim, idiossincrática em sua essência, mantendo-se indene às influências exógenas desencadeadas pela revolução dos meios de comunicação, em especial a comunicação virtual pela internet. É a esse quadro que procuram se adaptar os países da “primavera árabe”.

As ideologias experimentam, de fato, grandes transformações, como reconhecem até mesmo membros da esquerda brasileira, entre os quais Roberto Freire, presidente do PPS, ex-Partido Comunista Brasileiro. Em recente entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura de São Paulo, Freire foi categórico: “Admito que fracassamos.” Falsa autocrítica ou realismo político?

Se os meios de comunicação e os formadores de opinião que por eles se expressam, os “intelectuais orgânicos” de Gramsci, têm influência limitada sobre a cultura, onde é que se situa então a mola-mestra de conquista e manutenção do poder com a democracia mínima exigida pela globalização? Na prática política.

E qual é a estratégia a ser empregada nessa prática? A identificação do senso-comum, por meio de pesquisas empíricas relacionadas ao comportamento eleitoral, à avaliação de políticas públicas e do jogo parlamentar nas casas legislativas. Os centros de ciência política e as universidades têm comprovado, usando a teoria dos jogos, a extraordinária aplicação dessas pesquisas, cujos resultados convergem para o pensamento único.

Michel Zaidan Filho, professor pernambucano, em seu artigo “Democracia Deliberativa”, observa, sobre o que considera essa nova modalidade de positivismo (eis aí mais uma constatação que vejo da atualidade de Augusto Comte):

“A ampla aceitação dessa teoria nos departamentos das ciências sociais e aplicadas e a enorme influência dessa nova modalidade de positivismo veio neutralizar a presença do marxismo, do estruturalismo francês ou da Escola de Frankfurt no meio acadêmico, criando uma espécie de “pensamento único”, extremamente útil, aliás, para políticos gerentes, políticos reguladores ou simplesmente salesmen — como chama ironicamente a revista inglesa The Economist essa safra de estadistas da “reforma do Estado”.

Nessa modalidade de prática política, a democracia é cenário indispensável, mas a cultura política fica em segundo plano, e, sem mudança cultural, a influência dos “intelectuais orgânicos” torna-se limitada aos campos teórico, filosófico e doutrinário, perdendo muito nos campos ideológico e científico. Eis porque tenho minhas dúvidas sobre o propalado êxito do gramscianismo, embora modestamente respeite as opiniões contrárias.

Em resumo, considero Augusto Comte o filósofo mais influente da atualidade política no Brasil e demais países da esquerda latina, e seu positivismo a blindagem, o antídoto natural infalível contra o veneno suave e mortal de Gramsci.

  • Colunismo Social: Vício e Modismo

( Publicado em 10/05/2011)

O colunismo social se transformou no maior vício e no maior modismo da imprensa brasileira, tomando conta de todos os meios de comunicação social impressos e eletrônicos: jornal, revista, rádio, televisão e internet.

No interior ou na grande cidade, os antigos “mexericos da Candinha” se tornaram o espaço da imprensa mais visado pela classe média. Não há programa de rádio ou jornal e rede de televisão que não tenha seus especialistas em falar da vida alheia, fotografar e comentar grandes festas da sociedade. A internet então… Tornou-se por excelência a vitrine das fofocas.

Até a grande imprensa aderiu ao colunismo social. As revistas “Veja”, “Caras”, ”Contigo”;  os jornais “O Globo”, a “Folha de São Paulo”, “O Estado de S.Paulo”, ”Jornal da Tarde”; quase todas as emissoras de televisão e quase todos os sites o comprovam.

A classe média em geral e uma pequena fatia da classe mais tradicional adoram saber quem faz o que, quem está namorando quem, quem se casou ou se separou, como é a residência de fulano ou beltrano, como andam as personalidades na vida real (os políticos de modo especial), qual a raça da cadela de certa senhora, quais são os novos milionários e falidos, como foi o casamento ou as bodas de um casal milionário ou artistas famosos, qual a nova moda nos salões, que tipo de  roteiro turístico nacional e internacional é a nova atração,etc.

Não quero citar muitos colunistas de renome, do Centro-Sul, mas alguns que conheci pessoalmente, como colegas de jornalismo e do meu tempo de profissional ativo no “Correio Braziliense” e em “O Estado de S.Paulo”: Ibrahim Sued (O Globo), Zózimo Barroso do Amaral (JB), Talita de Abreu, a “Katucha”, e Gilberto Amaral (Correio Braziliense), Hildegard Angel (O Globo), César Giobbi (O Estado de S.Paulo), Giba Um (Diário do Comércio), Tavares de Miranda e Joyce Pascowitch (Folha de São Paulo), Amaury Júnior (Rede TV), Hélio Fraga (O Estado de Minas), etc. Sei que outros nomes faziam muito sucesso nas demais regiões, mas esses li com freqüência, como repórter, até por dever de ofício, para elaborar e cumprir pautas jornalísticas.

Confesso que hoje raramente leio uma coluna social, mas elas continuam “bombando” em todos os meios de comunicação, ainda mais com o surgimento dos denominados “promoters” – pessoas responsáveis por organizar e promover um determinado evento, recepção, festas, seminários, etc.-, que confeccionam disputadíssimas listas de convidados com gente famosa ou rica e que garantem a divulgação de fotografias e comentários nas colunas sociais.

Colunistas e “promoters” atuam numa espécie de simbiose, ajudando-se mutuamente em seus objetivos – captação de notícias e promoção de negócios, ambos interessantes aos órgãos de comunicação.

Não vejo no horizonte algum sinal de crise para esse segmento jornalístico, mas, ao contrário, acho que ele vai navegando de vento-em-popa, inclusive no interior do País, onde os colunistas sociais são temidos, odiados e ao mesmo tempo idolatrados, dependendo da notícia que escrevem.

Uma boa teoria de sustentação das colunas sociais é a de que as pessoas são mais importantes do que os fatos. Assim, não há notícias velhas e nem requentadas, porque o importante é o evento e as pessoas que dele participaram sem a necessidade do imediatismo e da atualidade que antes orientavam o denominado “furo”, no jargão jornalístico.

É claro que um bom repórter, assim como um bom redator ou colunista, não dispensa uma notícia de primeira mão, “quentinha”, mas aquele pesadelo de ser furado, que antes dominava os jornalistas, parece ter diminuído, depois que os “pools” jornalísticos foram institucionalizados com base nas agências noticiosas.

Carlos Castelo Branco, em sua “Coluna do Castelo”, e Carlos Chagas, em “O Estado de São Paulo”, foram mestres do “furo” analítico, aquele que driblava os próprios censores e repassava informação relevante ao leitor atento. Ambos não deixavam de ler as colunas sociais.

Jornalista hoje parece ter medo de “furar” os colegas e sofrer represálias não só dos mesmos, mas das próprias fontes, muitas das quais governamentais, quase sempre com acesso direto às chefias e direções dos órgãos jornalísticos.

Na minha dissertação de Mestrado em Ciência Política, pela Universidade de Brasília, cujo tema é “Comunicação Política no Brasil Moderno”, abordo a prevalência do Estado sobre a Sociedade no controle da comunicação política no País, a partir da década dos 30, por meio das vertentes política, jurídica e econômica. Se fosse atualizar esse meu trabalho, não deixaria de realçar a importância crescente da coluna social.

 

  • A atualidade de Augusto Comte e o Positivismo

(Publicado em 25/04/2011)

Refletindo sobre uma interpretação do Positivismo, de Augusto Comte, por É. Bréhier, em sua “História da Filosofia” (Editora Mestre Joel, 1977), indago se o grande filósofo de Montpellier se mantém atual, com todas as transformações do mundo ocorridas desde a publicação do seu “Discurso sobre o Espírito Positivo” (1848).

Ao propor a aplicação da ciência positiva – aquela pesquisada e aplicada com o método da observação concreta do fenômeno, somente em suas conseqüências, e não em suas causas, sem uso de recursos da metafísica e teologia – para o aprimoramento da sociedade, visando-se, em última instância, ao desenvolvimento da Humanidade, Comte lançou um repto aos transcendentalistas e idealistas.

Quando produziu seus textos e elaborou a “Lei dos Três Estados” do homem na Terra (teológico, metafísico e positivo), preconizando a Religião da Humanidade, Comte não sabia, evidentemente, que o homem faria expedições fora do planeta, pisando o solo lunar e espiando de perto os planetas, com suas poderosas naves telescópicas.

O desenvolvimento científico, tecnológico e industrial, aplicado à ordem e ao progresso social, foi bem intuído por Comte, mas, como ficaram os conceitos de amor e moral essenciais à regeneração social e à substituição de Deus pela Humanidade? Sem a metafísica e o idealismo, teria o homem chegado ao Cosmos, contrariando o filósofo? Ainda mais se considerando que a física quântica, hoje, sintetiza tudo que existe, inclusive o amor e o átomo, em fenômeno puramente energético.

É inegável que Comte é um dos filósofos mais influentes de todos os tempos, e, no Brasil, sua atualidade é concreta, a começar pela inserção do dístico “Ordem e Progresso” na Bandeira Nacional e seu prestígio junto às Forças Armadas, onde o nome de Benjamin Constant Botelho de Magalhães, positivista, um dos fundadores da república e ex-ministro –da- Guerra, continua em destaque especial no Almanaque do exército.

Na cultura, na política e na educação, é ainda é considerável a influência positivista, se destacando como positivistas Euclides da Cunha, o marechal Rondon, Lindolfo Collor, Júlio de Castilhos, etc. A Igreja Positivista do Brasil, fundada em 1881, pouco depois da fundação, por Miguel Lemos (filho de um oficial da Marinha), da Sociedade Positivista do Brasil (1876), continua com várias capelas abertas no País, cultuando “o Amor por princípio, a Ordem por Base e o Progresso por fim”.

Mas, o que prepondera, nessa minha reflexão, é a curiosidade de saber a razão de ter Comte exaltado a primazia da matéria sobre o espírito em sua obra, mas adotar o título “Discurso sobre o Espírito Positivo”. Ele usa a evolução do espírito humano como referência em sua análise filosófica da história. Portanto, admite a existência do espírito (algo que ele não tem “positivamente” como provar). Poderia ter adotado o título, mais coerente, de “Discurso sobre a Matéria Positiva”.

Outro aspecto importante desse filósofo, que pode ser raiz de algumas rusgas atuais entre a influência do PT ortodoxo no poder e uma considerável ala positivista das Forças Armadas. Comte achava uma grande aberração o Socialismo e outras doutrinas que preconizam o fim do que considera “constantes sociais”: Religião, regime da propriedade, constituição da família e forma de governo com equilíbrio entre poder espiritual e material e tripartição de poderes (república).

Como “inventor” da expressão “Sociologia”, antes denominada fisiologia social, Augusto Comte poderia ter hoje alguma relação com o PSDB do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, discípulo do sociólogo Florestan Fernandes, mas ambos são socialistas e weberianos. Também não se aplica o positivismo rigorosamente a nenhum outro partido brasileiro da atualidade. Com muita indulgência, talvez ao Partido Progressista (PP), ex-Arena, PDS e PPR, ao Partido de Reedificação da Ordem Nacional –PRONA- e ao Partido Humanista da Solidariedade (PHS).

  • Desmarxização em curso

( Publicado em 12/04/2011)

Lanço um neologismo –“Marxização”- significando a difusão e adoção do Marxismo, doutrina elaborada por Karl Marx, em defesa do Socialismo Utópico ou Comunismo, sistema que procura substituir o Capitalismo pela coletivização dos meios de produção e eliminação das classes e das desigualdades sociais, sob o comando dos intelectuais e do proletariado unido do mundo inteiro.

Creio que está em curso no mundo inteiro um processo de “desmarxização” como expressão da frustração de grande parcela da esquerda, principalmente a intelectualizada (mais do que a operária) com a constatação de que a doutrina marxista não dá certo e não tem consistência , principalmente depois da queda do muro de Berlim, em 1989, e da desintegração da União Soviética pela  “Perestroika”(“Reestruturação”) defendida por um dos seus principais líderes contemporâneos, o estadista Mikhail Gorbachev.

Termino a leitura de “Rumo à Estação Finlândia”, de Edmundo Wilson, autor insuspeito, pela vastidão e qualidade de sua obra, impressionado com o desleixo material e intelectual de Karl Marx, como jornalista, doutrinador, filósofo, teórico e profeta do Comunismo.

E fico também perplexo com a precariedade das bases teóricas e filosóficas utilizadas por Lênin para desencadear a Revolução de 1917 na Rússia. E indago: Em que (ou quem) se inspirou Fidel Castro para a revolução cubana?

À minha frente, tenho a obra de John Lechte –“50 pensadores contemporâneos essenciais –do estruturalismo à pós-modernidade”. Ali está incluso o tema “Pós-Marxismo”, explicando-se que esse questiona a natureza redutiva e antidemocrática do marxismo, bem como de qualquer movimento político que explique mudanças na história em termos de papel de uma classe específica ou agência privilegiada. Ou seja, “pós-marxismo” não passa de uma renegação ao Marxismo.

O texto adiante elucida: ”O pós-marxismo aceita a inspiração que deriva do envolvimento político de Marx, mas nega a ênfase marxista na economia como determinação ou na idéia de que exista uma classe universal – o proletariado – que surgirá na era do socialismo. Os pós-marxistas argumentam hoje pela democracia radical.”

Os intelectuais têm medo de falar isso abertamente e preferem se esconder por trás das teses revisionistas de Bernstein, que impulsionaram o socialismo-democrático com base na realidade de cada país, sem a ortodoxia marxista, servindo até mesmo de inspiração prática a Lenin, por mais que esse tentasse adaptar Marx à realidade, pois o grande líder revolucionário se defrontou com o populismo russo e o fanatismo nacionalista eslavófilo.

Sem as premissas econômicas e sem o proletáriado decisivo de Marx, que desprezava a democracia, a nova esquerda quer o socialismo democrático, dando razão a Gorbachev, que, ao lançar a “Perestroika”, em 1987, dois anos antes da queda do Muro de Berlim, pedia “mais socialismo e mais democracia.” Para seu país e para o mundo.

Depois de exaltar o êxito da coletivização iniciada em 1917, que “colocou a Rússia outrora atrasada no rumo certo”, Gorbachev ressalva, porém, que “nossas conquistas mais fantásticas não impedem que enxerguemos contradições no desenvolvimento de nossa sociedade ou em nossos erros e omissões”.

A seu ver, é importante seguir os princípios do Leninismo (Lenin, e não Marx é o modelo, segundo dá a entender claramente Gorbachev) realçando ainda mais a democracia e descomprimindo-se o modelo administrativo com o que chamou “Glasnost” (maior abertura, transparência).

Os intelectuais agora vão além do revisionismo de Bernstein. Theodor Adorno, Hanna Arendt, Jürgen Habermas, Ernesto Laclau e Alain Tauraine procuram sublimar os erros do Marxismo vestindo-os com novas roupagens referentes à essência do pensamento de Marx e à sua aplicação como ação transformadora. Não batem de frente com o profeta alemão.

Argumentam pela democracia radical,quando o próprio Marx demonstrava desprezo à democracia, sem esconder sua convicção de que ela serve mais ao propósito da burguesia que usa o estado como instrumento de dominação e que retarda o processo de desenvolvimento industrial que conduzirá ao futuro esfacelamento do capitalismo, início da era socialista.

Adorno critica a tentativa de Marx de desacreditar a filosofia por ser idealista demais e afirma em “Dialética Negativa”: “A não-identidade é possivelmente o télos oculto e negativo da filosofia. Logo foi equívoco de Marx pensar no fim da filosofia precisamente nesses termos.”.

Arendt aponta o paradoxo em Marx, que exalta a forma do labor (não do trabalho) como criadora de toda riqueza e a “essência” do homem, mas também diz que, com a sociedade comunista e o “fenecer” do estado, “ninguém será forçado a trabalhar por necessidade, cada um tendo a liberdade de ser um caçador de manhã e um crítico à noite, sem ninguém ser essencialmente um crítico ou um caçador”.

Habermas rejeita a teoria marxista de valor, bem como o positivismo dos últimos escritos de Marx, e Laclaus vê o marxismo clássico como determinista e essencialista, e defende nova estrutura teórica que possa representar os aspectos potencialmente libertadores da fluidez relativa, partindo-se do princípio de que não existe elo necessário entre socialismos e agentes sociais concretos (como a classe operária). A sociedade não deve ser concebida como um grupo unido por leis necessárias.

Tauraine (um dos gurus do nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) considera o elemento-chave do movimento social a ação contra o sistema social. Contrário a Marx, diz Tauraine que não existe classe social propriamente dita, pois não existe classe sem consciência de classe. ”Classe social é a categoria em cujo nome um movimento age”.

Lendo Edmundo Wilson, capto uma imagem negativa de Marx: Como ser humano, um prepotente; como chefe de família, um negligente; como estudioso da história, um apressado; como escritor, um indisciplinado; como filósofo,  pouco criativo;como ativista, um acomodado, e como cidadão, um omisso. Pessoalmente, Marx era um aproveitador, um parasita, um inconseqüente explorador de seus familiares e amigos (Engels o sustentava). Como intelectual, era demagogo e errático, com idéias inconsistentes e confusas.

O “Capital”, escrito às pressas, é uma obra inacabada e eivada de impropriedades de política e filosofia econômicas, onde a dialética hegeliana é distorcida na célebre alusão à leitura invertida que ele e Engels fizeram de Hegel.

Quis Marx tomar o capitalismo como tese e o materialismo histórico como antítese, mas o fato é que nem mesmo a revolução russa conferiu as idéias de Marx e foi deflagrada mesmo sem marxismo, apesar da admiração de Lenin aos princípios dessa doutrina. O próprio Marx teria se surpreendido com a revolução na Rússia, onde era evidente o atraso dos camponeses.

A queda do Muro de Berlim encerrou uma grande farsa, o socialismo científico preconizado por Marx que a esquerda tentou impingir à humanidade, como revolução em países atrasados e como opção ao capitalismo burgues no Terceiro Mundo (assim denominado um grupo de cerca de 100 países).

Ainda não temos nenhuma antítese, nenhum efeito dialético contrário ao capitalismo emergente após o Mercantilismo e o surgimento do Estado Moderno. O Liberalismo transmutou-se impávido, sob a cortina do Estado de Direito, para Neoliberalismo no Estado Contemporâneo e Global, e o capitalismo se faz mais feroz e selvagem do que nunca.

A globalização aí está como um fenômeno econômico, mais do que político, sem que haja algum proletariado fazendo revolução, como queria Marx, e sem nenhuma união revolucionária dos sindicatos operários no mundo inteiro, como previa Sorel.

O socialismo não virou antítese e muito menos nova tese de progresso social dos povos, e o fosso entre ricos e pobres, senhores e escravos, se acentua cada vez mais, com novos matizes ideológicos.

Muitos outros marxistas renegam hoje o determinismo e o essencialismo de Marx, causando sérios problemas de leitura e adequação de linguagem aos programas dos partidos de esquerda do mundo inteiro, como se vislumbrassem em Marx uma cortina de incoerências e impropriedades, silogismos e falácias, que tecem uma nova síntese, ainda indefinida e indefinível, ao embate dialético entre capitalismo e comunismo.

Definitivamente, o Socialismo Democrático inspirado em Bernstein representa ruptura definitiva com o marxismo clássico, tornando-se o meio democrático mais eficaz de conquista do poder pelas esquerdas, mas até mesmo os tradicionais comunistas, de antes da queda do muro de Berlim (russos, chineses, albaneses, cubanos, etc.) encontram mais inspiração em Lenin e Mao do que em Marx-Engels. Será esse século o século do ocaso de Marx?

Já se fizeram muitas comparações entre Cristo e Marx, entre o espiritualismo cristão e o materialismo marxista, numa tentativa de igualar seus poderes de influenciar a humanidade. Cristo foi mártir, e seus seguidores, entre os quais São Paulo, deram impulso ao Cristianismo, sem manter fidelidade absoluta ao Sermão da Montanha.

Semelhante processo ocorre com o Marxismo: Desviando-se da pregação original de Marx, a nova esquerda alega que essa é uma conseqüência histórica de toda doutrina. Esse Comunismo sem Marx contemporâneo, essa desmarxização, tende a transformar o Marxismo numa nova religião, reduzindo Marx a um profeta, como Cristo, Maomé, Buda, Abraão, etc.