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	<title>Jornal da AEI &#187; Literatura</title>
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	<description>O mundo da comunicação no Espírito Santo</description>
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		<title>Poemas de um Pomerano</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Sep 2009 02:24:27 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[ “(&#8230;) Vasto é o mundo
Bastantes são os sonhos
O que queremos
Nós, pomeranos,
É simplesmente sermos também!
Sermos por muito tempo!”
“Mar Azul  (Blåg Sei) Poesias de um Pomerano”, livro póstumo de Celso Kalk, com poemas  em português e em pomerano, foi lançado na última sexta-feira, 4 de setembro,  em Melgaço, Domingos Martins, durante as comemorações dos 150 anos da Imigração Pomerana no Espírito Santo. Além dos poemas de Celso, o livro traz  depoimentos de amigos e familiares, juntamente com seus dados genealógicos, históricos, mapas, ilustrações, fotografias e a reprodução de cartas e de documentos ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"> “(&#8230;) Vasto é o mundo<br />
Bastantes são os sonhos<br />
O que queremos<br />
Nós, pomeranos,<br />
É simplesmente sermos também!<br />
Sermos por muito tempo!”</p>
<p>“Mar Azul  (Blåg Sei) Poesias de um Pomerano”, livro póstumo de Celso Kalk, com poemas  em português e em pomerano, foi lançado na última sexta-feira, 4 de setembro,  em Melgaço, Domingos Martins, durante as comemorações dos 150 anos da Imigração Pomerana no Espírito Santo. Além dos poemas de Celso, o livro traz  depoimentos de amigos e familiares, juntamente com seus dados genealógicos, históricos, mapas, ilustrações, fotografias e a reprodução de cartas e de documentos pessoais dos imigrantes.  Também estão presentes no livro fotografias do próprio autor, que  tinha interesse em registrar o casario pomerano de Melgaço  para incentivar a sua preservação.</p>
<p>Filho de uma família de colonos do interior capixaba , Celso Kalk nasceu em 28 de junho, mesma data em que se comemora a chegada dos primeiros pomeranos  ao Espírito Santo. Ele faleceu aos 25 anos de idade, em 9 de janeiro de 2004, num acidente de trânsito na BR 262, mas deixou escritos poemas nos quais demonstra grande amor à sua cultura e às suas origens e descreve a história da imigração pomerana, as dificuldades e os desafios impostos aos imigrantes, os enfrentamentos com a nova terra, seus usos e costumes. </p>
<p>“O Celso não concordava com as normas clássicas da escrita, gostava do risco, da liberdade de criação na poesia. Os problemas sociais também o deixavam revoltado. A sua indignação o motivava a escrever. Tinha uma consciência crítica muito forte”, diz sua irmã Rosânia, em depoimento no livro. O trabalho de edição e publicação de “Poesias de um Pomerano” é fruto de uma parceria entre a família de Celso e o Arquivo Público do Espírito Santo.</p>
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		<title>“Zeitgeist” reúne crônicas de Jeann Bilich que transcendem ao espírito do tempo</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Aug 2009 22:28:00 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[“São 23:30, hora local. Estou na estação de Hauptbahnhof, em Frankfurt, terminando este prefácio. O trem rompe o silêncio da fria noite alemã, aproximando-se velozmente da plataforma. Enquanto passam os vagões, percebo que o som do deslocamento do vento parece soprar a palavra zeitgeist, zeitgeist&#8230; no fugaz fluir da ‘grande serpente metálica’, como o próprio ‘espírito do tempo’”. Nesse cenário, Sidemberg Rodrigues teceu o prefácio do novo livro de Jeanne Bilich, não apenas inspirado no espírito do tempo de Jeanne, mas naquele momento estava também transcendendo o espírito do espaço.
Foi ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-medium wp-image-374" title="Capa Zeitgeist" src="http://imprensacapixaba.org.br/wp-content/uploads/2009/08/Capa-Zeitgeist1-229x300.jpg" alt="Capa Zeitgeist" width="229" height="300" />“São 23:30, hora local. Estou na estação de Hauptbahnhof, em Frankfurt, terminando este prefácio. O trem rompe o silêncio da fria noite alemã, aproximando-se velozmente da plataforma. Enquanto passam os vagões, percebo que o som do deslocamento do vento parece soprar a palavra <em>zeitgeist</em>, <em>zeitgeist</em>&#8230; no fugaz fluir da ‘grande serpente metálica’, como o próprio ‘espírito do tempo’”. Nesse cenário, Sidemberg Rodrigues teceu o prefácio do novo livro de Jeanne Bilich, não apenas inspirado no espírito do tempo de Jeanne, mas naquele momento estava também transcendendo o espírito do espaço.</p>
<p>Foi Sidemberg mesmo que numa conversa informal propôs a Jeanne reunir suas crônicas publicadas no Caderno Dois, de A Gazeta, de Vitória – ES. Jeanne assentiu, mas o advertiu de seu pouco tempo para selecionar tantas crônicas, e nesse momento entrou em cena a escritora Deny Gomes, que garimpou a partir de julho de 2007, o que ela considerou relevante e agora nos presenteia com este <em>Zeitgeist </em>, que será lançado na próxima terça-feira (25), às 19 horas, no Salão de Eventos da Assembleia Legislativa.</p>
<p>“São textos exemplares pela fusão de amável conversa com o leitor e sofisticado repertório de reflexões sobre a vida, a história e o tempo”, nos assegura Deny na orelha do livro. Segundo ela, “trata-se de crônicas solidamente ancoradas em experiências múltiplas de mulher, advogada, jornalista, radialista, entrevistadora e, acima de tudo, interlocutora e participante interessada no diálogo da vida”, “que convencem o leitor a cruzar um pórtico textual e quântico para experienciar seu próprio drama existencial, muitas vezes impermeabilizado pela alienação”, complementa Sidemberg.</p>
<p>Zeitgeist é o título de uma das crônicas que estão no livro. É claro, é alemão, a única língua possível para a filosofia, segundo Caetano Veloso. Zeitgeist é a combinação de dois signos:  Zeit que significa tempo; geist, espírito. Zeitgeist traduz, portanto, o espírito do tempo. Nesse contexto estão todas as crônicas selecionadas em que Jeanne constata criticamente as mazelas humanas, mas se coloca esperançosa o suficiente para almejar superá-las.  Deny nos revela uma Jeanne também irônica “apenas o necessário para sugerir o despreparo da sociedade contemporânea em relação aos valores mais significativos da existência, mas compassiva e generosa para com a humanidade e suas fraquezas”.</p>
<p>“Com um admirável poder de síntese, Jeanne Bilich, no esplendor de sua performance, planta sementes na consciência leitora, que, uma vez assentadas, expandem-se em um incômodo Big Bang de conclusões irrefutáveis, que tiram o leitor de sua zona de conforto, para torturá-lo num mar de indagações enfeixadas em forma de senso de urgência”, diz  Sidemberg.</p>
<p>Deny conclui afirmando que Jeanne em suas crônicas “transita do mundo da política para o das artes, conversa com o sagaz leitor e com seu gato Nietzsche, refere-se aos clássicos gregos e latinos e aos mais contemporâneos filósofos, sociólogos, romancistas e cineastas. Ela nunca é vulgar.  Jamais será aborrecida.  Ler suas crônicas é entrar num fascinante jogo de sedução que tem por objetivo incluir-nos numa numerosa legião de amigos”.</p>
<p><strong>Petisco</strong></p>
<p>Leia abaixo a íntegra da crônica que deu nome ao livro:</p>
<p> </p>
<p style="text-align: center;"><strong>                               Zeitgeist ou Espírito do Tempo </strong></p>
<p>“Poder-se-ia ver o espírito da época soprando, ora quente, ora frio, sobre as suas faces”, grafou Virginia Woolf (1882-1941) no seu magistral “Orlando”. O espírito da época ou o espírito do tempo pode ser dito, ó sagaz leitor, numa única, bela, sibilante, veloz – e, para mim, quase mágica! – palavra em alemão: zeitgeist (pronuncia-se tzait.gaisst).</p>
<p>Zeit que significa tempo; geist, espírito. Zeitgeist traduz, portanto, o espírito do tempo dominante em certa época, prevalecente num determinado contexto histórico. A palavra condensa a atmosfera intelectual e cultural – o somatório dos saberes da época – e, ainda, o clima moral, emocional, artístico e comportamental de nós, homens, no caminhar pela trilha da Linha do Tempo Histórico. Jornada iniciada nas civilizações primeiras, estendendo-se por milênios até os dias presentes: pós-modernidade. O conceito zeitgeist, idealizado pelo filósofo alemão Johann Gottfried Herder (1744-1803), só passou a ser melhor conhecido com a obra “Filosofia da História”, de Hegel.</p>
<p>Espero, ó paciente leitor, que o preâmbulo não o tenha entediado, pois busco bem alicerçar o hipnótico fascínio que o zeitgeist irradia. Por quê? Porque enfeixa duas das minhas candentes paixões: o Tempo e a História. Aliás, sequer há como dissociá-los: tempo é história – seja a da nossa singular trajetória incrustada no panorama socioeconômico, político, ideológico e cultural ora vigente; seja na História – com H maiúsculo – que remonta às antigas civilizações (Mesopotâmia, Egito, Grécia e Roma), projetando-nos para o futuro: a exploração espacial prenunciando a colonização humana do cosmos. Tempo &amp; História. Zeitgeist.</p>
<p>Mas, caso o sagaz leitor, não se interesse pela História ou – quem sabe? – nem pelo fetiche do Tempo – a despeito do lembrete de Jorge Luis Borges: “Tempo é a substância da qual sou feito” –, convido-o a peculiar zeitgeist. Musical. Como? Ora, experimente ouvir o “Trenzinho Caipira”, nas Bachianas Brasileiras nº 2, de Villa-Lobos. Instantaneamente somos tragados pelo “buraco negro” do tempo, recuando para os primórdios do século XX. Embalados pela cadência rítmica da orquestra que reproduz o som da locomotiva “Maria Fumaça” resfolegante, cortando serras, “dobrando” morros, enquanto verdes campos, rios e plácidas lagoas se descortinam&#8230;</p>
<p>E que tal nos ejetarmos, a seguir, num zeitgeist musical futurista? Aposto em “Also sprach Zarathustra”, de Richard Strauss, trilha sonora de “2001: Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick. Se preferir, ó cinéfilo leitor, (re)assista ao filme ou acesse as cenas de abertura  no YouTube.  O despontar do Sol sobre o planeta em elíptica, ao som de tambores fortes anunciando nova aurora para a humanidade do futuro. O advento do Super-Homem de Nietzsche? Bravo!&#8230; Bravíssimo!&#8230;</p>
<p>Já o zeitgeist musical do presente&#8230; Bem, talvez, “Carmina Burana”, de Carl Off, enquanto, numa sucessão célere de flashes mentais – clip? &#8211; revemos o ruir das torres gêmeas do World Trade Center, o genocídio no Afeganistão e no Iraque, a fome e a Aids a dizimar populações inteiras na África&#8230;  E, por último, minimizando o foco, captar a alma de cada um de nós, de per si, nos respectivos e personalíssimos zeitgeist musicais. O meu? “Meditação” da ópera “Thaïs”, de Jules Massenet. E quanto ao seu, ó sagaz e sensível leitor?!&#8230;</p>
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		<title>&#8216;Leite derramado&#8217;, memórias quase póstumas de Chico Buarque</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Jul 2009 14:42:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>aeiadmin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Reinaldo Moraes
Como Brás Cubas, protagonista do clássico de Machado de Assis, Eulálio d&#8217;Assumpção, o de &#8216;Leite derramado&#8217;, quarto romance de Chico Buarque, revê a vida, a partir de seu fim. Não está morto, como o outro, e sim, moribundo. Mas conta suas memórias à maneira tateante dos personagens típicos do Bruxo.
Com o Brasil nas mãos
Eulálio d&#8217;Assumpção, aristocrata arruinado de Copacabana e da “fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra”, jaz na cama hospitalar da pobre enfermaria em que o internaram depois de uma fratura grave. Eulálio fez ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="alignleft size-medium wp-image-285" title="Leite Derramado" src="http://imprensacapixaba.org.br/wp-content/uploads/2009/07/Leite-Derramado-207x300.jpg" alt="Leite Derramado" width="207" height="300" />Reinaldo Moraes</strong></p>
<p>Como Brás Cubas, protagonista do clássico de Machado de Assis, Eulálio d&#8217;Assumpção, o de &#8216;Leite derramado&#8217;, quarto romance de Chico Buarque, revê a vida, a partir de seu fim. Não está morto, como o outro, e sim, moribundo. Mas conta suas memórias à maneira tateante dos personagens típicos do Bruxo.</p>
<p><strong>Com o Brasil nas mãos</strong></p>
<p>Eulálio d&#8217;Assumpção, aristocrata arruinado de Copacabana e da “fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra”, jaz na cama hospitalar da pobre enfermaria em que o internaram depois de uma fratura grave. Eulálio fez 100 anos. Fora de combate na vida, o espevitado ancião monodialoga em alguns capítulos com uma interlocutora nula e muda, uma moça, talvez uma enfermeira (talvez não), improvisada em depositária de suas extensas memórias vincadas a fogo pela incurável saudade de sua Matilde, antiga esposa para sempre amada, desaparecida de sua vida quando se achava na flor moreníssima dos seus 17 anos. Nunca vemos a suposta enfermeira que ouve e anota as histórias de Eulálio, mas, logo na primeira página, ele promete se casar com ela na tal fazenda da sua feliz infância.</p>
<p>Em outros capítulos, a interlocutora/ouvinte é a filha única de Eulálio, já octagenária. Outras vezes ainda esse jorro de lembranças de vida, embaralhando histórias de antepassados e descendentes, simplesmente escapa de sua cabeça sem destino certo, mas indo, de todo jeito, bater nos ouvidos afortunados do leitor desse encantador Leite derramado, quarto romance de Chico Buarque, que acaba de sair pela Companhia das Letras.</p>
<p>Neste ponto, quem não quiser perder tempo com resenhas, pode jogar o jornal pro alto e sair correndo para comprar o livro. Depois de ler, volte aqui, que eu estarei esperando. Isto é, se não embrulharem alguma tainha comigo antes. Começando a leitura hoje, sábado, na segunda você estará com o livro, de pouco menos de 200 páginas, devidamente saboreado e a cabeça recheada de ótimas histórias pra contar no Jobi, se estiver no Rio, ou na Mercearia São Pedro, se em São Paulo, depois de um fim de semana segurando nada menos do que o Brasil nas mãos.</p>
<p>Ter o Brasil em forma de romance nas mãos quase não é uma metáfora, visto que a saga familiar-patriarcal derramada por Eulálio se imbrica em profundidade com uma certa história do país vista ao mesmo tempo da varanda do poder e da perspectiva amarga de um ex-bacana acossado pela idade provecta e por uma miséria terminal que o reduz ao nível da “escória”, “dessa gente desqualificada”, como ele mesmo diz, com sua costumeira amargura elitista. E tudo isso permeado por cenas que dão a ver a olho nu os mal-abafados conflitos raciais brasileiros, da perspectiva de um narrador marcado por indelével atavismo escravagista. Essa questão do racismo, aliás, rende ao livro alguns de seus mais altos picos artísticos, inclusive em matéria de humor.</p>
<p>Me contorço aqui para reprimir a vontade de contar o que Eulálio diz à namoradinha branca de seu jovem bisneto que lhe saiu misteriosamente negro, depois de ouvi-la gemer e gritar cadelosamente no quarto ao lado, onde se atracava com o garotão. É absurdamente hilária a cena e vale por um ensaio uspiano sobre os aspectos sexuais do racismo made in Brazil. Mas não vou contar, para não estragar o impacto da leitura na fonte.</p>
<p>O Chico escritor está aqui na ponta dos cascos. Com sua habilidade narrativa para administrar ambiguidades e paradoxos no interior da narrativa – o que seu romance anterior, Budapeste, já tinha comprovado sem deixar dúvidas – ele atribui os constantes avanços e recuos no tempo da história às derrapadas e repetições próprias de uma mente senil, como a do seu narrador centenário. O romance, no entanto, segue em frente, lúcido e linear a sua maneira, justapondo histórias do tempo do rei, dos imperadores e das velhas e novas repúblicas, passando pelas ditaduras de Vargas e dos militares, cumprindo programaticamente o dever de casa historiográfico que ele parece ter-se proposto.</p>
<p><strong>Galeria de tipos </strong></p>
<p>Chico dá corpo e voz a um bom número de personagens saborosos, de corte realista mas com discretos contornos caricaturais. É o caso, por exemplo, de um de seus descendentes, o tataraneto, traficante pleiba de alto coturno que me lembrou muito o herói do filme Meu nome não é Johnny, de Mauro Lima. Na galeria dos antepassados, Eulálio capricha na figura da mãe, podre de elitista e dona de uma franqueza altaneira que não poupa ninguém que esteja um centímetro abaixo dela numa escala social caduca e mirabolante. Para se ter uma ideia, a páginas tantas, madame, que prefere falar francês sempre que possível, até com a criadagem, ganha gentis empadinhas de um conviva gaulês, patrão de seu filho. O sujeito não passa de um engenheiro sem nobreza que teve o azar de chegar atrasado a um jantar na casa da aristocrata. Ato contínuo, a soberba matriarca repassa as iguarias popularescas aos empregados da mansão, que as devoram degustando o Bourgogne estragado da adega do finado pai de Eulálio.</p>
<p>Esse Eulálio pai, senador da República Velha e, por sua vez, filho de um figurão do Império (e outro Eulálio), é um dos melhores personagens secundários do livro. Cocainômano que não vive sem os lendários bujões Merck, frequentador dos melhores bordéis parisienses e dissipador crônico da fortuna herdada, lega essa última característica ao filho, que vê seu dinheiro velho rapidamente aplastado pelo dinheiro novo que se espalha pela cidade verticalizando radicalmente seu perfil.</p>
<p>Já deu pra perceber, a essa altura, que o livro de Chico Buarque se deixa ler com avidez e um prazer tão romanesco quanto intelectual. Seu tamanho reduzido, que o levaria a ser confundido com uma novela, esconde uma profusão de trilhas ficcionais e grandes temas subjacentes – o mandonismo desenfreado das elites, a troca de guarda em seu interior, o racismo latente que permeia as relações sociais no país – que, mais do que explicam, encenam os principais períodos da História do Brasil: Colônia, Império, República Velha, período getulista, nova democracia interrompida em 1964 com a ditadura militar, e o Brasilzão global-periférico que emergiu da redemocratização em 1985.</p>
<p><strong>Sérgio Buarque e Gilberto Freyre </strong></p>
<p>Uma pauta historiográfica tão evidente no enredo de Leite derramado faz supor que baixou em Chico Buarque um santo acadêmico compósito, espécie de mescla dos principais explicadores do Brasil, entre eles seu pai, Sérgio Buarque de Hollanda, Gilberto Freyre de Casa grande e senzala e o crítico literário Roberto Schwarz, dos ensaios clássicos sobre Machado de Assis.</p>
<p>Creio que de Gilberto Freyre o livro sorve – e atualiza – uma idéia muito criticada pelo pensamento marxista, e que José Miguel Wisnik sintetiza com perfeição ao comentar sobre seu livro Veneno remédio: o futebol e o Brasil (Companhia das Letras, 2008): “(&#8230;) a sociabilidade brasileira, com base na mestiçagem, é para Freyre um remédio – a civilização original nos trópicos – extraído do veneno da violência escravista” (Entrevista a Luiz Zanin, n&#8217;O Estadão).</p>
<p>Chico, porém, faz seu narrador chafurdar no veneno da pobreza sem ser redimido pelo remédio da “sociabilidade brasileira, com base na mestiçagem”. Diz Eulálio no ocaso miserável da vida: “Mesmo vivendo em habitação de um só compartimento, num endereço de gente desclassificada, na rua mais barulhenta de uma cidade-dormitório, mesmo vivendo nas condições de um hindu sem casta, em momento algum perdi a linha”. Quer dizer, em nenhum momento deixa de empinar seu nariz aristocrata, apesar de sujo, dando pano para cenas muito engraçadas.</p>
<p><strong>A elite </strong></p>
<p>Sérgio Buarque de Hollanda, de seu lado, talvez enxergasse no percurso de Eulálio o registro literário da extinção da base social e do modo de vida de uma elite rentista que praticava seu portuguesinho escorreito, mantendo a devida distância da fala popular, enquanto exercia seu mandonismo corrupto e ineficiente, marca do poder de origem rural e lusa, segundo o autor do seminal Raízes do Brasil. Caberia como uma luva em Leite derramado a observação feita por Sérgio no fim desse estudo, de 1936, flagrando “o aniquilamento das raízes ibéricas de nossa cultura para a inauguração de um novo [tipo de sociedade], que crismamos talvez ilusoriamente de americano (&#8230;)”. Aqui, onde se lê americano, entenda-se massificado e vulgar.</p>
<p>Entretanto, o capitão do time de “roteiristas acadêmicos” por trás de Chico Buarque outro não é senão o santo máximo da judaicocristandade literária brasileira: Machadão de Assis, assimilado de forma personalíssima no Leite derramado, sem que seu autor lance mão de nenhum tique machadiano, desses que ginasiano usa em redação para impressionar a professora de português. Em Eulálio Assumpção, assim como em Machado, a eulalia a serviço da memória exibe sólida base culta, e mesmo cultíssima, infiltrada de coloquialismos vintage característicos do falar de certa elite e classe média antigas. Chico tira do armário uma língua deliciosamente inatual, em boa parte devorada pelo ritmo vertiginoso da dinâmica verbal pós-midiática, ou coisa que o valha. Uma iguaria a ser degustada em êxtase pelos apreciadores da última flor do Lácio em versão brasiliana-demodê.</p>
<p>Voltando ao Machado, acho impossível que o leitor brasileiro não identifique no Eulálio buarquiano a cruza bem-sucedida entre dois famosos herdeiros de famílias ricas saídos da pena de Machado: o Brás Cubas voluntarista, inconsequente e cronicamente diletante do romance homônimo, e Bentinho, o jovem e tímido burguês de Dom Casmurro que acaba dando num típico patriarca autoritário, paranóico e vingativo, às voltas com cornos delirantes depois de casado com Capitu. E é lógico que a mais famosa personagem feminina da lit-br se empresta aqui graciosamente de modelo a Matilde, musa-em-chefe do livro, moça linda, de pele castanha e olhos negros, criada na burguesia mas guardando na pele e nos modos (assobia na mesa para chamar o garçom) a marca das legiões excluídas de onde provém.</p>
<p>A capitulina Matilde, aliás, vê-se no centro de uma cena que parece ter sido soprada no ouvido do autor por Roberto Schwarz. Essa, não resisto, vou contar: Matilde está com Eulálio e uns franceses num cabaré com música de orquestra, no entre-guerras, período em que o personagem ainda vive no bem-bom financeiro e amoroso. Um francês do grupo se põe a elogiar em sua própria língua a natureza do país à bela morena carioca, que talvez nem o compreendesse. Narra Eulálio: “Embora o olhasse muito aplicada, sentada na ponta da cadeira, percebi que ela dançava o fox-trote da cintura para baixo”.</p>
<p>Coincidência ou não, é quase a mesma coisa que Roberto Schwarz nota sobre José Dias, o agregado da família de Bentinho, em Dom Casmurro, de Machado de Assis, ao sugerir que sua posição ambígua na família senhorial, ao mesmo tempo interna e subalterna, obrigava-o a funcionar em duas velocidades antitéticas, como um passista de escola de samba a executar movimentos “vagarosos e principescos da cintura para cima, enquanto os pés se dedicam a um puladinho acelerado e diversificado” (“A poesia envenenada do Dom Casmurro”, em Duas meninas, Companhia das Letras, 1997).</p>
<p>Acho divertida – e, claro, refinadíssima – a ideia de incorporar teoria no jogo literário, sem jamais botar nenhum personagem deitando tediosa falação teórica, como fariam escritores vulgares, que sempre os há – se os há! Aqui a teoria é encenada em pura literatura, e não exige que o leitor a identifique, muito pelo contrário. Só não recomendo aos colegas escritores que tentem fazer o mesmo em casa. (Se tentarem, rogo que não venham me mostrar.) Pode dar erradíssimo, com as pernas peludas da teoria aparecendo o tempo todo por baixo da saia da prosa ficcional.</p>
<p><strong>O velho Francisco </strong></p>
<p>Poderia insistir mais um pouco nesse joguinho do quem-é-quem por trás do Leite derramado, mencionando de passagem o Serafim Ponte Grande e suas fantasias sexuais com o Pinto Calçudo, no livro do Oswald Andrade. Eulálio parece ter-se inspirado nelas quando lhe bateu a repentina e caprichosa ideia de sodomizar um criado negro descendente dos escravos de seu avô, outro Eulálio. Mas, como não tenho todo este Idéias à disposição, fecho o assunto apontando uma das mais fortes fontes inspiradoras do livro: a canção O velho Francisco, do próprio Chico.</p>
<p>De fato, são óbvias – e sublimes – as similitudes antitéticas entre seu novo personagem de 100 anos de idade, Eulálio d&#8217;Assumpção, e o velho Francisco da canção homônima do compositor, um dos muitos clássicos instantâneos que legou à musica popular. Ambos os macróbios, o do livro e o da canção, poderiam proclamar de boca cheia: “já gozei de boa vida, tinha até meu bangalô”.</p>
<p>A pequena diferença é que, enquanto o eu lírico da canção buarquiana é um ex-escravo que se gaba de ter sido “alforriado pela mão do imperador”, o elitista Eulálio Assumpção descende dos caras que viveram nas costas de africanos cativos, sobre as quais deitavam lambadas de chicote como paga por seus préstimos.</p>
<p>Enfim, se Chico resolveu mesmo atacar de sociólogo e historiador no marco de uma linguagem e uma narrativa essencialmente literárias, com altíssimo rendimento estético – e poético, o que faltou salientar aqui – o fato é que se deu bem. Acho que, em última análise, Chico “fez porque podia”, para citar Bill Clinton (“I did it because I could”), tentando explicar a jornalistas porque tinha dado uns güentos naquela estagiária gordinha dentro da Casa Branca. Chico Buarque, afinal, tem as armas e as ferramentas do melhor da cultura brasileira, tendo nascido no seio dela, e soube dar vida ficcional a isso numa escrita sedutora, fluente mas não caudalosa, que permite muitas e suculentas camadas de leitura, o que deverá deslumbrar ólogos e istas em geral, sem deixar de atrair seu enorme leitorado sequioso do biscoito fino – no bom sentido – que Chico acaba de botar na roda (também no bom sentido).</p>
<p><strong>Reinaldo Moraes</strong>, autor dos romances Tanto Faz, Abacaxi, Órbita dos caracóis e Pornopopéia,  lançado este ano pela editora Objetiva</p>
<p><strong>Extraído do JB Online</strong></p>
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		<title>Claudio Lachini incorpora Vasco Fernandes Coutinho em romance triunfal</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jul 2009 23:16:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>aeiadmin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A história do Espírito Santo tem um novo registro com a obra &#8220;Vasco &#8211; Memórias de um precursor da globalização&#8221; (Barcarolla, 264 pp.) romance histórico, do jornalista Claudio Lachini. O romance se passa nos dias derradeiros da vida de Vasco Fernandes Coutinho, um fidalgo português, que foi o primeiro capitão donatário da Capitania Hereditária do Espírito Santo, em que o personagem se deixa dominar pelas lembranças de  lutas, conquistas e derrotas na Índia, Malaca, Meca, Ormuz e na China. Escrito na primeira pessoa, Lachini oferece os leitores uma suntuosa descrição histórica ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-full wp-image-264" title="Vasco Lachini" src="http://imprensacapixaba.org.br/wp-content/uploads/2009/07/Vasco-Lachini2.JPG" alt="Vasco Lachini" width="147" height="194" />A história do Espírito Santo tem um novo registro com a obra &#8220;Vasco &#8211; Memórias de um precursor da globalização&#8221; (Barcarolla, 264 pp.) romance histórico, do jornalista Claudio Lachini. O romance se passa nos dias derradeiros da vida de Vasco Fernandes Coutinho, um fidalgo português, que foi o primeiro capitão donatário da Capitania Hereditária do Espírito Santo, em que o personagem se deixa dominar pelas lembranças de  lutas, conquistas e derrotas na Índia, Malaca, Meca, Ormuz e na China. Escrito na primeira pessoa, Lachini oferece os leitores uma suntuosa descrição histórica dos tempos dos navegadores, em que incorpora as dores e o orgulho do súdito português.</p>
<p>Vasco Fernandes Coutinho chegou à pequena praia de Piratininga no dia 23 de maio de 1535, que caiu em um domingo de Pentecostes, e por isso batizou a terra da qual veio a tomar posse de Espírito Santo. Com ele vieram 60 degredados, ex-prisioneiros que, a seu pedido, o rei dom João III libertou da prisão do Limoeiro, em Lisboa.</p>
<p>&#8220;Quem foi esse Vasco, excomungado pelo bispo dom Pero Fernandes Sardinha, aquele que os índios Caeté comeram no litoral nordestino?&#8221; Lachini responde essa pergunta. Além da excomunhão, a história brasileira registra bem pouco sobre ele. Frei Vicente do Salvador, o primeiro historiador nativo, escreveu que ele morreu tão pobre que não tinha de seu &#8220;nem um lençol para o amortalhar&#8221;.</p>
<p>Claudio Lachini lembra que, ao morrer aos 73 anos de idade, em 1561, o donatário tinha um engenho de açúcar, canaviais e quinze escravos negros, embora tivesse renunciado ao posto de capitão, forçado pela idade, pela doença e pelas intrigas armadas contra ele.</p>
<p>Ao contar as misérias humanas do herói, o romance narra de forma sucinta e bem engendrada que Vasco trouxe para o Brasil sua amante portuguesa, Ana Vaz, bem como o filho gerado fora do casamento, e seu herdeiro, igualmente chamado Vasco Fernandes Coutinho, o sexto desse nome na família.</p>
<p>&#8220;Esse mundo de Deus não me é estranho, porque aprendi a ver sua largueza onde o mar me levou e compreendi sua pequenez a cada ser humano que encontrei&#8221;, diz Vasco, que esteve na China em 1522 e de onde voltou fugido.</p>
<p>O desenvolvimento da narrativa é entrelaçado por diálogos fictícios e fatos históricos encontrados na extensa bibliografia pesquisada pelo autor. Para reconstruir o cenário de época descrito no livro e dar o sotaque lusitano à obra, Lachini trabalhou por mais de um ano em pesquisas e consultas bibliográficas. O autor recorreu a mais de 40 livros importados de Portugal, consultou o Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, as bibliotecas da PUC-RJ e da USP, a Biblioteca da Universidade de Nova York, a Biblioteca Nacional de Portugal e o Arquivo Público do Espírito Santo.</p>
<p>Segundo o escritor e jornalista Geraldo Hasse, que assina a orelha do livro, a narrativa &#8220;tem um encantador sotaque luso antigo e traz à tona um Portugal esquecido, ainda que cantado por Camões&#8221;.</p>
<p>Entre outros livros, Claudio Lachini escreveu &#8220;Sperandio&#8221;, romance sobre a imigração italiana no Espírito Santo, lançado em 2007 pela Editora Barcarolla, de São Paulo. Se em seu primeiro livro de ficção e história Lachini deu vida a um imigrante italiano do século XIX, em &#8220;Vasco&#8221;, ele corporifica o personagem título, salvador de Arariboia isolado pelos Tupinambás e pelos franceses na hoje Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, e constrói interessante diálogo com o jesuíta José de Anchieta. O livro foi patrocinado pelo Instituto de Ação Social e Cultural Sincades, com apoio da Secretaria de Estado da Cultura (Secult).</p>
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		<title>Viviane Mosé descortina isolamento cultural do Espírito Santo</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Jul 2009 15:44:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>aeiadmin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[A história do Espírito Santo ganhou uma nova análise com o lançamento da obra &#8220;A Resistência Tapuia na Capitania do Espírito Santo&#8221;, escrita pela filósofa Viviane Mosé, capixaba que vive no Rio de Janeiro desde 1992. O é resultado de uma monografia do curso de Especialização em Políticas Públicas, feita na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em 1991, sob orientação do professor Nelson Lucero, do Departamento de Psicologia. A  obra é uma publicação do IHGES, com apoio da Secretaria de Estado de Cultura (Secult), da empresa Saneamento e Montagens ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-full wp-image-226" title="Tapuias" src="http://imprensacapixaba.org.br/wp-content/uploads/2009/07/Tapuias.jpg" alt="Tapuias" width="135" height="200" />A história do Espírito Santo ganhou uma nova análise com o lançamento da obra &#8220;A Resistência Tapuia na Capitania do Espírito Santo&#8221;, escrita pela filósofa Viviane Mosé, capixaba que vive no Rio de Janeiro desde 1992. O é resultado de uma monografia do curso de Especialização em Políticas Públicas, feita na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em 1991, sob orientação do professor Nelson Lucero, do Departamento de Psicologia. A  obra é uma publicação do IHGES, com apoio da Secretaria de Estado de Cultura (Secult), da empresa Saneamento e Montagens (Samom), e Rede Gazeta.</p>
<p>Uma questão incomodou Viviane Mosé quando, 25 anos atrás, começou a construir seu destino. Ela diz no livro que o Espírito Santo sempre ocupou uma posição obscura no cenário nacional e se pergunta: o que fez nossa cultura ser marcada por este desconhecimento, por este isolamento? Por que, apesar de estarmos próximos dos grandes centros urbanos e industriais, numa privilegiada posição geográfica litorânea, permanecemos por tanto tempo afastados do grande fluxo econômico que marcou a costa sul e sudeste do Brasil?</p>
<p>Mosé precebe hoje que, ao contrário do que viveu em sua juventude, o Espírito Santo começa a aparecer como uma alternativa para o país. &#8220;Nascida da lama como a flor de lótus, nossa cultura de violência e desmandos políticos ressurge como um exemplo de cidadania, gestão pública. Estamos mudando a direção de um barco centenário que insistia em encalhar na lama, mas ainda é cedo. Estamos em plena luta contra forças retrógradas e excludentes, forças desagregadoras, destruidoras que dominaram nosso estado desde os primeiros tempos&#8221;, diz a filósofa.</p>
<p>Para contruir a obra Viviane Mosé optou por um mergulho histórico, tentando apreender o nascimento e os primeiros anos de colonização do solo Espírito-santense. Um ponto parecia se destacar: em 1710 foi proibida a construção de estradas para o interior do Estado, com objetivo de preservar a mata atlântica, e também proteger o ouro de Minas Gerais dos corsários e contrabandistas. Com a medida Dom João V relegou a Capitania do Espírito Santo a um século de esquecimento.</p>
<p>E estudando mais profundamente o fato, a filósofa viu que na época dessa proibição a Capitania possuía território praticamente desocupado, exceto em pontos isolados do litoral. A inexistência de vilas no interior era outro fator que justificava a não construção de estradas, pois não haveria um dispositivo econômico que sustentasse as obras. Ao constatar isso, a filósofa seguiu para outro caminho: tentar compreender a razão da não ocupação do solo.</p>
<p>A trilha levou a escritora para uma guerra longa e sangrenta entre colonos e indígenas. Ela estudou as tribos indígenas do Brasil, e viu que o estabelecimento dos Tupi ao longo da Costa Atlântica, aconteceu pouco antes da chegada dos portugueses. Uma migração de Tupi invadiu o domínio Tapuia (no século XVIII, tapuia significava qualquer indígena de um grupo que não se integrava nas comunidades portuguesas, nem adotava o modo de vida tupi-guarani. Eles não falavam a mesma língua e continuavam avessos à civilização), expulsando-os para o interior e estabelecendo o domínio unificado pela língua Tupi-Guarani.</p>
<p>A tupinização dessas tribos permitiu a unificação do Brasil, na medida em que facilitou o acesso português. Os que não eram Tupi, ao contrário, eram considerados Tapuias, e a respeito deles circulavam os relatos mais assombrosos e imaginários: seriam os Tapuias os mais ferozes, antropófagos e de organização mais primitiva. Acontece que eram os tapuias que habitavam a maior parte do território capixaba. Eram falantes de línguas Macro-Gê: Goitacaz, Aimoré, Botocudo e Puri. Existiam também os Tupiniquim que eram Tupi e que viviam em constante guerra com os Tapuias.</p>
<p>É somente com a vinda dos jesuítas, trazendo o processo de catequese, que se torna possível a continuidade do processo de colonização. Até o início do século XIX, os colonizadores ainda lutavam para ocupar o território da Capitania, resistindo ainda em vilas litorâneas. É somente com a chegada dos imigrantes europeus, no final do século XIX, que nosso solo será efetivamente ocupado.</p>
<p>Na contra-capa do livro de Mosé há um trecho da obra &#8220;Raízes de Brasil&#8221; (1963), de Sergio Buarque de Holanda, onde ele chega a afirmar que esse hiato tapuia no litoral predominantemente tupi, provocou o desprezo da Coroa Portuguesa que não tinha interesse em investir em território de língua desconhecida. O Espírito Santo, assim como o Sul da Bahia, compunham as terras que configuravam esse hiato.</p>
<p>Uma das coisas que mais impressionou a filósofa &#8220;foi a dificuldade que o domínio branco teve de se estabelecer aqui. Somente com a chegada dos imigrantes europeus, na segunda metade do século XIX, a população branca suplantou a indígena e a negra. A colonização do solo Espirito-santense foi lenta e tardia. Estivemos, desde o início, isolados do resto do país, fator que se reflete até hoje na subjetividade capixaba&#8221;.</p>
<p>A escritora completa: &#8220;este isolamento quase nunca é discutido, analisado, e, quando é, parte de uma hipótese que nos coloca como passivos desprivilegiados pela coroa portuguesa; falo da interpretação corrente de que estivemos afastados do fluxo econômico e cultural do resto do país para servir de barreira de proteção às Minas Gerais. Mas esta proibição, de construir estradas para o interior, que de fato aconteceu, não pode, por si só, responder pelo vazio a que ficamos relegados. Quando a proibição aconteceu já estávamos isolados, despovoados, sem uma atividade econômica que justificasse a construção de uma estrada. Talvez a Capitania do Espírito Santo seja a representante da maior resistência indígena em solo brasileiro&#8221;.</p>
<p>Viviane Mosé é psicóloga e psicanalista, especialista em &#8220;Elaboração e Implementação de Políticas Públicas&#8221; pela Ufes. Mestra e doutora em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).</p>
<p>É autora do livro &#8220;Stela do Patrocínio &#8211; Reino dos bichos e dos animais é o meu nome&#8221;, indicado ao prêmio Jabuti, o mais tradicional e importante prêmio literário do Brasil, na categoria psicologia e educação. Organizou, junto a Chaim Katz e Daniel Kupermam o livro &#8220;Beleza, feiúra e psicanálise&#8221;.</p>
<p>Participou da coletânea de artigos filosóficos &#8220;Assim falou Nietzsche&#8221;. Escreveu e apresentou, em 2005 e 2006, o quadro &#8220;Ser ou não Ser&#8221;, no Fantástico, onde trazia temas de filosofia para uma linguagem cotidiana.</p>
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