A sociedade do espetáculo: pós-modernismo & mídia
Jeanne Bilich
“De nada adianta partir das coisas boas de sempre mas sim das coisas novas e ruins.” Bertold Brecht (1898 – 1956)
Introdução para a contextualização temporal:
O texto a seguir foi apresentado em setembro de 2003, no evento Agenda XXI, em Aracê, Espírito Santo. Coordenado pela professora Dra. Márcia Barros F. Rodrigues, o encontro reuniu mestres e doutores e estudiosos do Espírito Santo e de outros Estados.
Elaborado pela jornalista Jeanne Bilich, mestre em História Social das Relações Políticas, o trabalho recebeu modesta contribuição de minha parte: apenas levei para os ouvintes alguns jornais do dia e fiz breve análise do apelo à imagem vigente em grande parte das publicações brasileiras. O que era, há algum tempo, fotojornalismo, foi transformado em solução plástica – grosso modo, pobres não entram nas páginas dos jornais mais tradicionais. O fotojornalismo foi substituído sem critério pela infografia, um modo eficiente de “facilitar a leitura”, mas, de modo mais sutil, uma maneira eficiente de tirar do leitor a emoção de uma foto rasgada, que lhe mostre a vida real.
Lembro-me de um exemplo dado, e cujo distanciamento no tempo não me permite mais encontrá-lo: o jornal O Globo publicara, num domingo, matéria sobre a fome no Brasil. Como ilustração da reportagem, o editor optou pela foto de uma criança, olhar famélico, secreção saindo das narinas – o retrato de um país que a classe média e os empresários de comunicação, e ao final muitos nas redações, não querem olhar, definitivamente. Naquele domingo, foi a única imagem de impacto nos grandes jornais do Sudeste. O restante mostrava balões coloridos no céu, belos infográficos, fotos de celebridades, e mais nada.
De setembro de 2003 a agosto de 2009, infelizmente, o que mudou, mudou para pior. A maioria dos jornais, pressionada pelas vendas, apelou descaradamente não só para os efeitos visuais alienados da realidade, mas fez algo pior: as edições, em especial dos fins de semana, passaram a ser “planejadas”. Isto é, passaram a ser elaboradas de forma a trazer conteúdos, se é que esses podem ser assim chamados, palatáveis, com muito prazer e serviço para o rei leitor.
A fórmula manual de auto-ajuda diário para o leitor (Confira como, Veja como, Prepare seu bolso, Saiba como, Você sabe lidar com seu filho e etc.?, Segure seu emprego, e etc.) tornou-se a receita mais fácil e mais evidente para olhos míopes e estrábicos que comandam a briga por vendas em bancas e para cativar os assinantes. Nos fins de semana, essa receitinha tornou-se exponenciada, e foi burilada para ser ainda mais anestesiante. Daí a profusão de manchetes com “cara de revista” estampada por jornais de médio porte no país. Antigamente, sem sermos saudosistas, o leitor era respeitado como um ser inteligente e com capacidade crítica. Hoje, o leitor é tratado como uma criança que tem de ter mais prazer na leitura diária de besteiras. No fim de semana, ele tem de ser “presenteado” com matérias recorrentes, que, para parecerem novas, são revestidas com nova roupagem, como uma senhora idosa que precisa apelar a muitas cirurgias plásticas e assim tornar-se mais uma vez desejável, ou aceitável numa sociedade cujos espaços visíveis são tomados pela juventude, beleza e perfeição.
A propaganda que incita o leitor a comprar ou tornar-se assinante das publicações pode finalizar a equação: ela incita ao prazer de ler, ela diz ao leitor que ele não verá seu fim de semana passar. Anestesia a preços de banca! Você vai passar seu domingo num almoço chato na casa de sua sogra, com o bando de crianças que pôs no mundo, e aquele seu cunhado bem-sucedido e metido? Não se importe! Damos a você pedaços de papel para passar o tempo, sem ser antipático e sem brigar com sua mulher e a família dela! Nisso se transformou a luta, não pela sobrevivência dos jornais e do jornalismo, mas pelo lucro dos patrões.
Tudo no trabalho acadêmico de Jeanne – cuja leitura é realmente prazerosa – mantém-se atual: um exemplo do circo da mídia utilizado, lady Diana, ainda é muito atual, e mais atual se torna se traçamos o paralelo com o festival de “informações” acerca da morte de Michael Jackson.
A angústia dos jornalistas mais velhos que sobreviveram à onda das “consultorias”, do “jornal-produto” e do “jornalista gerenciador” que assaltou as empresas de comunicação e as redações nos anos 90 (e esses sobreviventes, talvez para profundo alívio pessoal, foram recentemente deletados das redações sob o pretexto de seus salários altos demais face à recente onda da “crise econômica”) e o dilema dos jornalistas mais jovens, diante de empresas que confundem jornal com sabonete e biscoito, e diante de um mercado formado por pessoas cada vez mais infantilizadas, estão também nesse trabalho, vivos!
Essa introdução não deve se alongar. Seu propósito é apenas lembrar ao leitor que o contexto e algumas referências no brilhante trabalho “A Mão e a Luva- A Sociedade do Espetáculo: Pós-Modernismo & Mídia” referem-se ao ano de 2003, mas permanecem atualíssimas.
Tanit Figueiredo Souza Mário- jornalista
A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO: PÓS-MODERNISMO & MÍDIA
Certamente a ninguém escapa, ainda que desatento e desinteressado, o extraordinário processo de transformação registrado na mídia nas últimas duas décadas, de maneira mais acentuada no Brasil, a partir dos anos 90. Tal foi a celeridade da metamorfose operada nos meios de comunicação de massa e, obviamente, na dinâmica das redações que jornalistas atuantes na área há mais de 20 anos, passaram a vivenciar – e continuam vivenciando - sérias dificuldades no exercício do seu cotidiano profissional. O fato mais surpreendente repousa no visível deslocamento do ‘eixo’ jornalístico, que os profissionais remanescentes da década de 70 estavam habituados a ‘operar’, trasladado para um novo estilo de fazer jornalismo. E aqui não nos referimos às inovações introduzidas pela tecnologia – da máquina de escrever para o computador – mas sim, da mudança ocorrida na própria essência, no cerne do jornalismo que, a bem da verdade, mudou radicalmente, tendo agora seus pilares plantados no binômio ‘texto mínimo e máxima profusão de imagens’, fragmentação e, em última análise, ‘falta de conteúdo’. De consistência. De substância. A palavra de ordem é superficialidade e fragmentação. De preferência, ‘espetaculosa’. Sob essa bandeira, a mídia esparrama-se, deita e rola em um espetáculo de cores e imagens, um arco-íris potencializado e esquizofrênico. O jornalismo analítico, dotado de profundidade e, portanto, um estímulo permanente à reflexão, bem como as grandes reportagens de caráter investigativo foram levados pelo furacão da pós-modernidade. Banidos das redações estertoraram rapidamente e chegaram ao óbito. Sem choro, nem vela! Não pranteado pela maioria dos jornalistas – sequer pelo próprio público – ‘choro, gemidos e ranger de dentes’ restritos aos profissionais mais antigos, que conseguiram sobreviver à eficaz guilhotina silenciosa da pós-modernidade, que lotou as redações de jovens ou quase imberbes repórteres, pagos com salários vis, como dita a hegemônica lei do lucro máximo na apoteose do capitalismo ultraliberal vigente. Diante desse quadro, “um espectro ronda’ as redações a formular, em tom inaudível para uma maioria esmagadora de jornalistas, a dúvida hamletiana adaptada ao tempo contemporâneo: evoluímos ou involuímos? A resposta – se captada a pergunta, naturalmente! – irá depender do olhar de cada um de nós, leitor, telespectador, ouvinte, profissional da área ou genericamente público, do exercício cotidiano do senso crítico, das referências acumuladas e, finalmente, da capacidade de julgar. Esse novo padrão jornalístico ora vigente que alguns passaram a denominar de ‘jornalismo-espetáculo’ ou, ainda, ‘jornalismo cor-de-rosa’, homogeneizou os veículos de comunicação em um paradigma imagético e cultural, tendo se cristalizado de maneira célere, processo análogo às inovações tecnológicas introduzidas nas redações.
Nesse cenário, parece-nos, portanto, mais que apropriado acatarmos a sugestão de Umberto Eco, reproduzida na epígrafe: ‘temos que começar de novo do começo, perguntando uns aos outros o que está havendo’. Citação, aliás, emanada de um texto de sua autoria, que busca analisar a voracidade com que os veículos de comunicação de massa passaram a se comportar, na expressão literal do semiólogo, ‘a tudo devorando’. Talvez – quem sabe? – ‘perguntando uns aos outros o que está havendo’ consigamos alinhavar alguns pontos de vista, encontrar novos enfoques e realçar fatos que escapam no afogadilho do corrido cotidiano contemporâneo. Para essa escavação, iremos necessitar de algumas poucas ferramentas: distanciamento do alvo analisado, olhar crítico, abordagem cognitiva, além de recorrer – de maneira concisa e com acuidade intelectual – ao arsenal teórico de renomados críticos como Jameson, Gabler, Bordieu, Forrester e Marshall, entre outros.
Comecemos com o ‘olhar’ de Fredric Jameson, expresso em “Pós-Modernismo – A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio”. Ao analisar a questão da ideologia do mercado, Jameson chama a atenção para suas singularidades: a gênese, por exemplo, reside na própria coisa em si, ou seja, a geração da ideologia provém do próprio mercado. E adianta que esse modelo ideológico congrega dois aspectos: de um lado, a relação entre as idéias e valores de liberdade e igualdade; e do outro, o sistema de trocas. Mas, na prática, ocorre justamente o oposto: a tão decantada liberdade e igualdade revelam-se paradoxalmente em ausência de liberdade, associada a uma flagrante desigualdade. Trata-se, entende o autor, tão somente de um retrato utópico dos ideais revolucionários do sistema burguês – liberdade e igualdade – que, embora inseridos na imagem da sociedade burguesa de mercado, inexistem na realidade. Na ótica jamesoniana, a retórica do mercado constitui um componente de fundamental importância na luta ideológica, tendo logrado êxito retumbante e avassalador. Entre as suas peculiaridades, uma de caráter assustador: a de ser imperceptível e, justamente por essa razão, haver ganho rapidamente caráter universal. A afirmação de Jameson tem o condão de trazer à mente uma outra alusão, também pertinente ao tema mercado, contida na obra O Horror Econômico, de Viviane Forrester, inserida na página 103:
“Antes de tudo atravessamos uma revolução sem perceber. Uma revolução radical, muda, sem teorias declaradas, sem ideologias confessadas; ela se impôs por cima e por meio de fatos silenciosamente estabelecidos, sem nenhuma declaração, sem comentários, sem o menor anúncio. Fatos instalados sem ruído na História e nos nossos cenários. A força desse movimento foi de só aparecer quando já estava instalado e de ter sabido prevenir e paralisar de antemão, antes de seu advento, qualquer reação contrária. Desse modo, a camisa-de-força dos mercados conseguiu nos envolver como uma segunda pele, considerada mais adequada para nós do que a do nosso próprio corpo humano.”
O mercado – afirma Jameson – já está sendo considerado como um novo saber, com características de divindade e até mesmo detentor de certos dogmas. Ou mantra, completaríamos nós, que repetido à exaustação – noite e dia – , em uníssono, pelos meios de comunicação reza: “Nenhuma sociedade pode funcionar eficientemente sem o mercado. Nenhuma sociedade pode funcionar eficientemente sem o mercado. Nenhuma sociedade pode funcionar….” Ladainha litúrgica, lavagem cerebral, que levou imperceptivelmente à conversão de todos - excluindo-se aqui, naturalmente, uma minoria dotada de olhar crítico, com acesso a maior leitura e, portanto, possuidora de capacidade crítica, outro morimbundo a deambular na sociedade contemporânea. Que, aliás, na visão da coordenadora desse evento, professora Márcia Barros Ferreira Rodrigues, segundo declarações recentes dadas ao jornal on-line SéculoDiario, mantém-se atrofiado “ porque na sociedade pós-moderna é bem mais vantajoso ser ignorante do que deter conhecimento, já que o conhecimento tem que ser rápido, sintético e superficial. Portanto, não se estimula mais à reflexão e a interpretação da análise. Não se transforma mais a realidade em enigma. Tudo é fragmentado, tudo é relativizado. A separação entre teoria e prática é enfaticamente colocada e nesse sentido torna-se impossível construir um saber crítico sobre a realidade. Porque o saber crítico está alicerçado necessariamente na dúvida e para duvidar temos que ter argumentos e para argumentar temos, também, necessariamente de construir uma formação científica baseada na reflexão filosófica. E, na pós-modernidade não há mais esse tempo: tudo é extremamente rápido, sintético e, portanto, superficial.”
Tal análise sociológica, remete-nos à profética antevisão de Ray Bradbury, descrita na obra prima “Fahrenheit 451”, um clássico do gênero ficção-científica, publicado em 1953, que nos oferece essa fantástica e minuciosa radiografia dos dias presentes (págs. 62, 63 e 64):
“Você pergunta: quando foi que tudo isso começou, como veio a existir, onde, quando? (…) No começo do século XX. O rádio. A televisão. As coisas começaram a ter ‘massa’. E como tinham massa, tornam-se mais simples. A população dobrou, triplicou, quadruplicou. Filmes, programas de rádio, revistas e livros, tudo isso se nivelou por baixo, está me entendendo?(…) O homem do século XIX tinha cavalos, cachorros, carruagens, tudo em câmara lenta. Depois, no século XX, acelere sua câmara. Condensações. Resumos, Tablóides. Livros reduzidos. Tudo se reduz à piada, ao fim emocionante. (…) Clássicos reduzidos a programas de rádio de quinze minutos, depois reduzidos ainda mais para dar uma coluna sobre livros que se lia em dois minutos, acabando uma enciclopédia num verbete de dez ou doze linhas. As enciclopédias e dicionários serviam para referência. Mas havia muitas pessoas que só conheciam Hamlet através de um resumo de uma página num livro que afirmava: “Agora você pode finalmente ler todos os clássicos: enriqueça sua cultura. Entende? O caminho era: do jardim da infância para a universidade e de volta para o jardim de infância. Esta foi a rota intelectual durante os últimos séculos.(…) Acelere o filme e bastante: clic, pegue, olhe, enxergue, agora, tlim, aqui, ali, rápido, pausa, em cima, embaixo, dentro, fora, por que, como, quem, o que, onde, hem? Aí! Pum! Tchan, trás, pam, pim, pum! Resumo de resumos, resumos de resumos de resumos. Política? Uma coluna, duras frases, uma manchete! Aí, de repente, tudo some! A cabeça da pessoa gira tão depressa nas mãos ávidas de editores, exploradores e comunicadores que a máquina expele para longe todos os pensamentos desnecessários que consumiam tempo! (…) A escolaridade se reduz, a disciplina é deixada de lado, as filosofias, a história e as línguas são abandonadas, aos poucos se deixa de cuidar da gramática e da sintaxe, que acabam quase que inteiramente esquecidas. A vida é corrida, o que conta é o emprego, o prazer está em toda parte depois do trabalho. Para que aprender alguma coisa a não ser apertar botões, mexer em alavancas, ajustar parafusos e porcas?(…) O homem tem cada vez menos tempo para pensar… Mais esportes para todo mundo, espírito grupal, alegria… e ninguém precisa mais pensar, hem? (…) Mais caricaturas em livros. Mais imagens. O espírito se alimenta cada vez menos. Impaciência. Estradas cheias de multidões que vão a algum lugar, nenhum lugar.”
Outro aspecto interessante no que concerne à filosofia política, comenta Jameson, é o fato de os neoliberais e o pessoal do mercado terem passado a considerá-la como ‘inútil’ no mundo pós-moderno. Conjugue-se esse conceito com a práxis política presente, concentrada, quase que exclusivamente, na função de alimentar e cuidar do aparelho econômico, entendendo-se como tal, o mercado e não os meios de produção coletivamente possuídos e organizados. O autor lembra ainda que, a bem da verdade, não existe nos dias presentes nenhum mercado livre no âmbito dos oligopólios e das multinacionais e que, na realidade, o mercado raramente oferece qualquer relação de livre escolha e liberdade, vez que tudo é determinado de antemão, devidamente planejado, sejam automóveis, brinquedos ou programas de televisão. Ou seja, escolhe-se em um universo pré-determinado, pré-delimitado, anos-luz das reais aspirações ou desejos dos indivíduos. Há, ainda que se perceber, a importância da conjugação de três fatores: o mundo fragmentado da pós-modernidade, como fator primeiro; que se alia a um globo que vai se encolhendo – a aldeia global, o fator segundo – e, finalmente, uma sociedade inundada pelos meios de comunicação. O resultado? Segundo Jameson, operou-se a partir daí, um novo fenômeno social: tudo passou a ser ‘compreensível’ ainda que paradoxalmente irracional. Ou seja, trata-se de um tipo de razão, totalmente destituída de qualquer valor normativo em oposição ao irracional, que encolheu a ponto de praticamente inexistir nesses tempos na qual estamos inseridos. Por mais assustador possa parecer – diz ele -, trabalha-se presentemente com “um delírio de consumo com a própria idéia de consumo”. A força do conceito de mercado, lembra com propriedade Jameson, reside em sua estrutura totalizante, ou seja, em sua capacidade de oferecer um modelo de totalidade social. A ideologia de mercado – diz o autor, com fina verve e ironia – assegura que os seres humanos estragam tudo, quanto tentam controlar seu destino e que é uma felicidade possuirmos um mecanismo interpessoal – justamente, o mercado! – capaz de substituir a arrogância e o planejamento do homem e de substituir, por completo, as decisões humanas. Traduzindo na forma concisa: ‘o mercado cuidará de nós e nos manterá nos eixos, bastando para isso mantê-lo limpo e azeitado’.
A explicação para esse novo conceito universal – o mercado assumindo ares de divindade – poderá ser encontrado, segundo Jameson, na História: ele acredita que a recém descoberta abrangência do mercado surgiu como contraponto ao medo do stalinismo, dos gulags e até mesmo ao que ele chama de Indústria do Holocausto que trabalharam e continuam a trabalhar as representações ideológicas. E exemplifica: o fracasso da União Soviética foi uma experiência desastrosa não só para aquele país, mas também contribuiu, de forma fundamental, para o resto da história global, inclusive, para o próprio socialismo. Mais: no entendimento de Jameson, determinou ainda, no presente, essa profunda indiferença ao marxismo e ao socialismo que vem caracterizando as diversas gerações de intelectuais mais jovens. O crítico aponta ainda para o que considera o mais assombroso na realidade presente, ultrapassando o entendimento comum. Ipsis litteris: “Como é que a aridez dos negócios e da propriedade privada ganharam um caráter prazeroso, quase sensual, além de conferir um sabor dickensiano aos títulos e aplicações, rendimentos das ações, fusões, investimentos bancários, etc.” A resposta – diz ele – poderá ser encontrada na mudança de representação: ou seja, da enfadonha representação anterior do livre mercado dominante nos anos 50, ocorreu uma mudança de associação muitíssimo diferente – a saber, os próprios meios de comunicação, no seu sentido contemporâneo e global, incluindo aqui a infra-estrutura dos mais recentes aparelhos e equipamentos de alta tecnologia da mídia possibilitam, aqui nas suas próprias palavras “ em uma operação pós-moderna, quando dois sistemas de códigos são identificados, de maneira a permitir que as energias libidinais inundem o outro, mas sem produzir uma síntese, uma nova combinação, uma nova linguagem. A analogia entre os meios de comunicação e o mercado é cimentada por este mecanismo: não é pelo fato de os meios de comunicação e o mercado serem semelhantes a um mercado, que as duas coisas sejam comparáveis; antes, ela são comparáveis por ser o mercado tão diferente de seu ‘conceito’, quanto o são os meios de comunicação de seu próprio conceito. Os meios de comunicação oferecem programas gratuitos em cujo conteúdo e composição o consumidor não tem absolutamente nenhuma escolha, mas cuja seleção é depois rebatizada de ‘livre escolha’.
Na tendência de identificar-se o produto com sua imagem, ou seja, a marca ou logotipo, efetuou-se uma outra simbiose – ainda mais íntima! – entre o mercado e os meios de comunicação e, ao final desse processo, as fronteiras demarcatórias acabaram por se diluir. Apagaram-se mesmo. Pouco a pouco, uma indiferenciação de níveis foi tomando o lugar da marcante separação de antigamente, tal como ocorre entre coisa e conceito. Sendo mais clara: os produtos vendidos no mercado transformaram-se no próprio conteúdo da imagem da mídia, de modo que um mesmo referente parece agora prevalecer em ambas as esferas. E, aqui, recordamos aos senhores, o que afirmamos no início dessa conversa: o susto nosso, isto é, dos profissionais de imprensa que militando na profissão há duas décadas perceberam claramente esse processo – mas, não sem espanto, indignação e até mesmo horror! – ou seja, detectaram o ‘eixo’ da notícia ser deslocado para essa nova e surpreendente realidade pós-moderna: a mercadoria transformada no próprio conteúdo da notícia, em sua essência e, por inaudito possa parecer, também a própria notícia metamorfoseada em mercadoria e, portanto, passível de ser vendida. Tudo fundido, devidamente amalgamado! Exemplificando: até os anos 80, a imprensa adotava como norma, como prática obrigatória, anexar-se uma série de ‘sinais explicativos’ – entendendo-se como tais um contorno em negrito, um asterisco ou os dizeres ‘informe publicitário’ – o que possibilitava ao leitor discernir, de forma clara e conclusiva, quais matérias eram comerciais, quais as de conteúdo jornalístico. Fronteira bem delimitada e marcante! Nos dias presentes, os produtos, instituições e empresas passaram a ser noticiados, além da conhecida forma de merchandising, com o próprio conteúdo global da notícia ou programa de televisão – e, por ironia, classificados como ‘entretenimento’ – que são então enxertados nas grades de programação regional das emissoras, sob o rótulo de ‘programas independentes’ ou programas locais, que podem ser produzidos pelas próprias televisões visando a aumentar o faturamento ou as emissoras vendem o espaço para o enxerto do programa, produzido em outro local. O mais grave, no entanto, ocorre na linha editorial dos telejornais (ou, pelo menos, na suposta linha editorial independente do veículo) quando – e vem acontecendo com freqüência assustadora! – há o enxerto de ‘pseudo-notícias’ jornalísticas que, a bem da verdade, são nada mais que ‘marketing’ de produtos ou mesmo das empresas, que ali aparecem como ‘notícias’, visando a atender ao apelo do departamento comercial de cada veículo de comunicação. Ou seja, da distância e até um certo menosprezo que havia entre os jornalistas da redação e o pessoal do Departamento Comercial dos veículos – cada um na sua esfera – metamorfoseou-se em predomínio quase hegemônico dos interesses do Departamento Comercial sobre a rotina das redações, isto é, descaracterizando o jornalismo na sua essência maior. Essas ‘pseudo-notícias’ jornalísticas – agora denominadas ‘matérias de negócios’ – têm habitualmente sua gênese quando da inauguração de ‘shoppings’ ou estabelecimentos comerciais, ‘cafés da manhã’, almoços de confraternização de executivos de empresas com a imprensa, lançamentos de produtos, marcas, ‘griffes’, etc. apresentadas como pautas a serem ‘cobertas’ pelos repórteres da editoria de economia e que são levados ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta na versão de ‘noticiário’ econômico. Essa tática de publicidade difusa, profunda e abrangente, impede que a grande massa de leitores, telespectadores, ouvintes etc. consiga discernir e/ou identificar o que é realmente de conteúdo jornalístico do que é comercial e marketing em sua própria essência.
A esse respeito, temos que aqui mencionar de forma elogiosa – e até recomendando com vigor a leitura – de “O Jornalismo na Era da Publicidade”, do jornalista Leandro Marshall, professor de Teoria da Comunicação e Ética da Universidade de Passo Fundo, Rio Grande do Sul que, em apenas 160 páginas rasga, sem piedade e/ou pudor, o véu que encobre o pastiche em que se transformou o jornalismo pós-moderno, denunciando as mazelas que se tornaram práticas cotidianas do jornalismo contemporâneo e as conseqüências nefastas dessa prática que advêm para a sociedade, sem esquecer-se de analisar a ‘destruição’ dos profissionais que estão na redação, submetidos ao ‘rolo compressor’ dos interesses dos Departamentos Comerciais dos veículos de comunicação massa. Neste trabalho de fôlego, o autor recorre a uma vasta bibliografia, desde figuras de proa da Escola de Frankfurt passando pelos clássicos da comunicação, como McLulhan, sem deixar de embasar-se em textos de Baudrillard, Bourdieu, Eagleton, Althusser e também jornalistas mais experientes, muitos deles no momento entrincheirados – como última opção profissional – na mais nova mídia, a internet – tentando sobreviver da incógnita que ainda é o jornal on-line (conseguirão sobreviver? Qual o caminho para a sua viabilidade econômica?) – ou como professores nas Faculdades de Comunicação que enxameiam por todo o país. Já na introdução do livro, Marshall adverte: “Essa metacultura emergente desconhece limites ao mesmo tempo que contamina e modifica o próprio genoma da comunicação e da informação, caracterizados contemporaneamente pela mediação a distancia, pela linguagem audiovisual, pela oligopolização, pela universalização em rede, pelo fenômeno das massas, pela estetização e pelos ‘fait divers’ (fait divers, ou seja, literamente ‘fatos diversos’, eram e são até hoje as categorias de notícias banais, apresentadas com base em seu caráter espetacular, sensacional etc. São notícias que, embora de importância duvidosa, normalmente atingem em cheio a necessidade do público por informação. Apesar de elaboradas tomando-se a matéria-prima da realidade, essas notícias acabam funcionando como iscas para atrair leitores e vender jornais). Ela – quer dizer, a metacultura – fabrica o senso de realidade e os modos de metabolizá-la e passa, em certa medida, a erigir uma nova e universal estética. Uma estética de signos, mais válida do que os valores arbitrários da modernidade, que não se submete a convenções. Uma estética que se superpõe às éticas da sociedade humana e nasce sob o signo da linguagem publicitária, encarregada de dar expressão à nova era. Esse processo de estetização cultural generalizada, que estetiza a própria ética e entroniza a publicidade, acaba subjetivizando os processos contemporâneos de comunicação e os modos de produção, transformação e circulação de uma informação tratada cada vez mais como mercadoria.”
Logo adiante, Marshall se refere à conseqüência dessa metacultura:
“Acossado diretamente por este ‘novo’ paradigma cultural e pela ordem do mercado, o jornalismo pós-moderno transforma-se em um ‘jornalismo cor-de-rosa’, marketizado, mercantilizado, estetizado e essencialmente light, um amálgama estético e capitalista, um instrumento-meio dos objetivos diretos ou indiretos do sistema e da lógica ultraliberal”. O autor chama a atenção para o resultado da soma desses fatores que, em suas próprias palavras “Com tudo isso, a sociedade informacional parece assim virar um território essencialmente adorniano, baudrillariano e nietzschiano. A erupção dos vazios e dos sentidos e a fratura da realidade dão lugar ao panteísmo dos signos e das mercadorias, pluralizados por esse processo pós-histórico e estético da relativização.”
Já no que concerne aos jornalistas propriamente ditos, diz o autor que, “de forma geral, o jornalista da era pós-moderna anula o senso crítico e a capacidade de reflexão e permite-se o ato de submeter o ‘lead’ e a pirâmide invertida à lógica do mercado. Por isso, o jornalista passa, consciente ou inconscientemente, a se defender e a defender seu emprego, seu salário, sua sobrevivência. Ele se rende à invisível censura do mercado e estabelecer a própria autocensura.”
A esse respeito, bem vale aqui lembrar Bordieu que identificou, por trás desse fenômeno, o nascimento do que ele denomina de “mentalidade-índice-de-audiência”:
“Há, hoje, uma ‘mentalidade-índice-de-audiência’ nas salas de redação, nas editoras etc. Por toda parte, pensa-se em termos de sucesso comercial. Há apenas uns trinta anos, e isso desde meados do século XIX, desde Baudelaire, Flaubert etc., no círculo dos escritores de vanguarda, dos escritores para escritores, reconhecidos pelos escritores, ou, da mesma maneira, entre os artistas reconhecidos pelos artistas, o sucesso comercial imediato era suspeito: via-se nele um sinal de comprometimento com o século, com o dinheiro. Ao passo que hoje, cada vez mais, o mercado é reconhecido como instância legítima de legitimação” (1997, p.37). O jornalista contemporâneo, segundo Bordieu (1997, p. 106) é aquele que, submetido à “mentalidade-índice-de-audiência”, curva-se sem culpa diante dos desejos e vontades do patrão, do leitor, da sociedade, do mercado e do capitalismo. Em último lugar vem a informação.”
O jornalista Eugênio Bucci, professor da Faculdade de Comunicação em São Paulo e ex-colunista e crítico do Jornal do Brasil, cargo que deixou para ocupar a direção da Radiobrás no Governo Lula, em artigo publicado em 15 de novembro de 2001, sob o título “Jornalismo: essa conta fecha?” aborda a questão da grave crise financeira em que navegam atualmente as empresas de comunicação, crise aliás que não é noticiada e, portanto, passa despercebida para a grande maioria da população: “Essa crise – diz ele – afeta diretamente o público porque, desta vez, em algumas redações, em alguma empresas, já se ouve a pergunta: o jornalismo tal como nós o conhecíamos será mesmo viável? Jornalismo sério, sóbrio, responsável, isso dá lucro nos tempos atuais? No Brasil? É possível, para uma empresa que atravessa um longo período de asfixia, manter em seus quadros um jornalista que leia três livros e estude ao longo de cinco dias antes de partir para a reportagem? Vale a pena estruturar uma redação com um núcleo realmente pensante, inteligente – ou é mais inteligente ter ali uma sumaríssima linha de montagem que apenas feche as páginas, sem ter de pensar demais? E, logo adiante, pergunta: “a crise econômica das empresas é hoje uma turbulência do mercado, uma turbulência superável, ou é algo que compromete a própria instituição da imprensa? Da minha parte – conclui o articulista – não tenho a resposta. Mas a pergunta me parece pertinente”.
Diante desse quadro, Jameson lembra que não foi sem razão que a retórica conservadora – que usualmente acompanha a retórica do mercado – não cansa de afirmar que esse modus vivendi estabelecido determinou o fim das classes sociais. A prova? Por inaudito possa parecer a quem é dotado de um mínimo de bom senso, os defensores dessa tese, apontam como prova irrefutável o fato da existência de aparelhos de TV ocupando espaço nobre nas casas dos trabalhadores. Aí a prova incontestável e cabal que atesta o fim das classes sociais! Dá para acreditar?! Segundo Jameson, uma conclusão que é sempre demonstrada, ratificada e ‘comprovada’. Seria cômico, não fora tão trágico! E é essa ‘totalização’ que permite estabelecer uma ponte com imagens fantasiosas do ‘mercado em geral’ ou do ‘mercado como processo unificado’. E bem poderíamos acrescentar ‘unificador’ e ‘homogeneizante’!
Um outro aspecto do complexo do conjunto de analogias entre a mídia e o mercado, subjacente à força da atual retórica do mercado, pode estar na própria forma “a imagem como forma final da reificação da mercadoria”, segundo conceituação de Guy Debord. Assim, justamente nesse ponto, o processo se inverte: não são os produtos comerciais do mercado que se transformam em imagens na propaganda. São – também por inaudito, possa parecer! – os próprios processos narrativos e de entretenimento que passam a ser reificados e transformados noutras tantas mercadorias. Como sugestão, aconselhamos a ver (ou a rever) o genial “Truman’s Show – O Show da Vida”, do cineasta Peter Weir, não nos esquecendo que também estamos inseridos na “Era das Celebridades”, construídas de forma instantânea para, então, após ‘consumidas’ – algumas de forma muito rápida como, por exemplo, o fenômeno ‘Tiazinha’, mergulharem no ostracismo. No livro Vida, o Filme, Neal Gabler (p.15), autor e crítico de cultura, afirma que a própria vida ganhou a dimensão de filme, de entretenimento. Segundo ele, “a transformação da vida num veículo de entretenimento não poderia ter dado certo, no entanto , se aqueles que assistem ao filme-vida não tivessem descoberto o que os primeiros produtores de cinema já haviam descoberto anos antes: que as platéias precisam de algum elemento de identificação para que o espetáculo as envolva de fato. No cinema, foram as estrelas. Para o filme-vida são as celebridades. Ainda que o estrelato, seja qual for sua forma, confira celebridade automática, é muito provável que hoje em dia ela seja concedida igualmente a gurus de dietas milagrosas, a estilistas e a suas chamadas top models, a advogados, políticos, cabeleireiros, intelectuais, empresários, jornalistas, criminosos – qualquer um que calhe de ser captado, ainda que efemeramente, pelos radares da mídia tradicional e que, por isso, sobressaia da massa anônima. O único pré-requisito é a publicidade. Nenhuma outra sociedade produziu tantas celebridades quanto essa ou que as tenha reverenciado de modo tão intenso. As celebridades não são apenas protagonistas de nossos noticiários, assunto de nossas conversas diárias e repositórios de nossos valores; elas estão entranhadas tão profundamente em nossa consciência que muitos indivíduos se dizem mais próximos, mais apaixonadamente apegados a elas do que aos próprios parentes e amigos. Veja-se a torrente de dor desencadeada pela súbita morte da princesa Diana, em 1997, ou aqueles que, enlutados, disseram aos repórteres que seu enterro era o dia mais triste de suas vidas. Como Diana confirmou, a celebridade é o moderno estado de graça – a condição no filme-vida a que quase todo mundo aspira. Outrora nós nos sentávamos no cinema sonhando com o estrelado. Agora vivemos num filme, sonhando com a celebridade.”
E, claro, não custa lembrar aqui, ainda, a fórmula descoberta pela empresa holandesa Endemol, criadora dos ‘reality shows’ que deu origem a programas como o “Big Brother”, ‘Casa dos Artistas’ e outros tantos ‘produtos/programas’ similares, que elevou os participantes – pessoas comuns da comunidade – à condição de celebridade máxima para, a seguir, mergulharem nas trevas do anonimato, da sociedade de massa de onde foram pinçadas.
Outra característica bastante interessante é observar como os noticiários da televisão passaram a se estruturar exatamente como nos seriados narrativos, ganhando ares ‘novelescos’: a própria imprensa passou a chamá-los de ‘jornalismo-show’ ou ‘jornalismo-espetáculo’. Dois exemplos podem aqui ser citados: o primeiro diz respeito à cobertura da Rede Globo referente à passeata “Brasil sem Armas” para exigir do Congresso Nacional a aprovação do Estatuto do Desarmamento que seria votado nos dias posteriores. A manifestação reuniu, segundo noticia o jornal “O Globo”, de segunda-feira, 15 de setembro de 2003, em manchete, cerca de 40 mil pessoas, a despeito da chuva. Na mesma chamada de primeira página lia-se: “A maior atração foi o elenco de “Mulheres Apaixonadas” que gravou uma cena durante a passeata”. O extraordinário é ler-se, na página 13, da mesma edição, a abertura da matéria: “Ficção e realidade se misturaram na caminhada “Brasil sem Armas”, ontem, em Copacabana. Cerca de 50 artistas e 200 figurantes da novela “Mulheres Apaixonadas”, da Rede Globo, participaram da manifestação. (…) Uma multidão de fãs tentou acompanhar o trabalho da equipe, gritando, pedindo autógrafos e querendo ver de perto os seus ídolos. As cenas da passeata estão programadas para ir ao ar no capítulo de hoje da novela das oito.” Não foi. Ficou para o dia seguinte, terça feira. E o Jornal Nacional, que antecede a novela, funcionou como “escada” perfeita para levantar a expectante audiência do folhetim eletrônico. No último bloco do jornal, foi inserida uma matéria, perdão, uma ‘peça publicitária’ explícita que mostrava no vt ‘exemplos’ de pessoas entregando armas: um senhor aposentado, passando por mulheres de diversas faixas etárias, todos, em uníssono, afirmando que se sentiam ‘aliviados’ por entregarem suas armas. Tem mais: o noticioso noturno foi encerrado com o tradicional “Boa Noite-padrão” do Jornal Nacional, sem o ‘break’, isto é, sem o intervalo comercial. Entram no ar, imediatamente, as imagens apoteóticas da passeata – ao som do Hino Nacional executado por inteiro, à guisa de sonoplastia –, num turbilhão de imagens policrômicas, vibrantes, buscando ângulos que levassem o telespectador ao paroxismo da emoção, convertido em lágrimas. Todo o primeiro segmento da novela constituiu-se justamente nesse festival de imagens, onde os atores misturavam-se à população, o que tornava impossível precisar, se a compacta multidão ali estava pela causa do desarmamento ou para desfrutar da proximidade física com as ‘celebridades’ globais, pedindo autógrafos (como a própria matéria registrou) ou como lobby para forçar a aprovação da legislação no Congresso Nacional. Jornalismo e novela, perfeitamente amalgamados, realidade e ficção intimamente fundidas: “Vida – o filme”, do Neal Gabler. Exemplo magistral! Já no que concerne ao jornalismo, isto é, ao Jornal Nacional, é princípio basilar, primário e indispensável – como sabem até mesmo os leigos – que toda e qualquer matéria jornalística tem obrigatoriamente que apresentar o contraditório, ou seja, os ‘dois lados’ do fato noticiado: ouve-se uma opinião (ou mais de uma), para então, confrontá-la com uma segunda (ou mais) opiniões divergentes, visando a atender o princípio ético da isenção jornalística. Se há uma sucessão de opiniões únicas, não é jornalismo, é – sem sombra de dúvida! – campanha publicitária, peça do ideário da publicidade. Diante dessa evidente e explícita fusão, desse insulto ao mais elementar princípio da técnica jornalística, com toda a certeza ‘o espectro que ronda’ as redações deve ter estremecido fortemente, a tronitroar: “Evoluímos ou involuímos?!” Um segundo marcante exemplo, a título de ilustração, ocorreu quando da cobertura jornalística da morte de Ayrton Senna. Ou mesmo quando do falecimento, por morte natural ou acidental, de qualquer cantor, atleta, ator, enfim, uma dessas ‘celebridades’ construídas. Nessa esteira, podemos ainda citar, o ‘dramalhão novelesco’ montado sobre tragédias familiares ou acidentes de trabalho letais envolvendo os próprios profissionais da imprensa, como o que vitimou o jornalista da Globo, Tim Lopes, no Rio de Janeiro e, em nível internacional, a morte de Lady Di, dois exemplares ‘circos’ montados pelos meios de comunicação. Temos nesses exemplos, a lastimável realidade do rolo compressor do jornalismo-show, do jornalismo-espetáculo, que investe na representação da realidade, apelando para a ficção-melodramática e o sensacionalismo, deixando de cumprir a função precípua, a essência maior do jornalismo: ser a fiel expressão dos fatos.
“A mídia contemporânea tem o poder de determinar o que é e o que não é realidade no mundo de hoje. (…) Por essa lógica, uma coisa existe ou deixa de existir hoje no mundo à medida que é comunicada pela mídia. A realidade deixa assim de ser a expressão dos fatos, para se revelar com a sua apresentação midiática.” – Marshall, págs. 50 e 51.
“Em um mundo todo permeado de comunicação – um mundo de sinais – num mundo todo teleinformatizado, a única realidade passa a ser a representação da realidade – um mundo simbólico, imaterial.” Guareschi, p. 14.
Cenário que não abstrai, ainda, os ditos “produtos/programas” especialmente construídos para obter-se esse efeito melodramático: Márcia Goldsmith, Ratinho, os ditos ‘policialescos’ (tais como Cidade Alerta, Linha Direta, etc.) que irão se somar aos quadros inseridos no Programa do Faustão, Gugu Liberato e Sílvio Santos, para citar só alguns. Aliás, um marcante ‘circo’ travestido de reportagem jornalística, foi exibido no programa dominical Gugu Liberato, do SBT, consistindo na apresentação de uma pseudo-reportagem, contendo declarações de um também ‘pseudo-integrante’ da facção criminosa PCC – episódio que gerou, inclusive, a suspensão da exibição por determinação da Justiça. Essa pequena amostragem, aqui, superficialmente lembrada, demonstra largamente em que nível – ou na absoluta ausência de – conseguimos aportar. Com a prudente ressalva, de que possa ainda haver zonas mais fétidas e abissais na vasta profundidade do esgoto pós-moderno midiático em que estamos a navegar. Não sem razão, o poeta Afonso Romano de Sant’Ana em sua coluna no caderno literário “Prosa & Verso”, do jornal O Globo, de 20/09 escreveu contundente, fugindo inclusive a seu habitual estilo literário:
“… vou dizendo que um dos argumentos mais banais dos que estão se espostejando no pântano da ideologia contemporânea, chamada pós-modernidade é dizer: estamos gostando muito da lama, do lixo, da porcaria em que estamos metidos. E dito isso, ajuntam: não temos que analisar nada, as coisas não fazem mesmo sentido, gostamos da superficialidade, do provisório, da confusão entre marginal e mocinho, de apropriação débita e indébita, da transgressão pela transgressão, do brilho das drogas ou dos flashes. Enfim, estamos sado-masoquisticamente achando um barato o ‘mal estar’ da contemporaneidade. Às vezes, tentam dizer isto de forma mais sofisticada, citam um filósofo ou outro, mas no fundo é o mesmo discurso sintomático.” O título do artigo é também mais que sintomático: “Ulisses e esse ‘mal estar’” – subtítulo: “Há os que gostam da lama ou de serem transformados em porcos”.
Voltando ao fio condutor, Fredric Jameson, afirma que os integrantes do circuito de uma cultura oficial ou elevada – onde ele próprio se situa – vêm tentando mostrar o definhamento e a obsolência das categorias ‘ficção’ e ‘realidade factual’, cujas fronteiras se diluem vertiginosamente, como acabamos de demonstrar. Neal Gabler, na obra já anteriormente citada, demonstra que “a realidade acabou sendo dominada pela lógica narrativa difundida pelo cinema e pela televisão, a tal ponto que hoje vivem em uma pós realidade, na qual é cada vez menos possível distinguir realidade e ficção.” Nesse aspecto, prossegue o crítico cultural, é possível perceber uma profunda modificação da esfera pública que pode até ser teorizada: a emergência de um novo campo de realidade da imagem, que tanto é ficcional (ou seja, narrativa – os personagens ficcionais de novelas e seriados passaram a ser apreendidos pelo público como ‘reais’, dispondo de vida própria, tendo suas peculiares ‘histórias de vida’ publicadas em revistas especializadas e cadernos de TV como, por exemplo, Odete Roitman, personagem da novela das oito da Rede Globo, que mereceu, inclusive, capa da revista Veja ou, ainda, na matéria do jornal O Globo, também já aqui citada, edição de 23/09, onde o nome real dos atores que participaram da passeata Brasil sem Armas aparecem substituídos pelos das personagens que interpretam na novela quanto factual, e que agora, tornou-se semi-autônomo e flutua acima da realidade.
Mas há que se registrar, ainda, uma diferença histórica fundamental entre a esfera da cultura clássica do passado e a cultura do presente: no passado, a realidade persistia independente dessa ‘esfera cultural’ sentimental e romântica, ou seja, sabia-se perfeitamente discernir entre uma e outra (ator e personagem), ao passo que hoje, perdeu-se esse modo de existência distinto. Nos dias presentes, a cultura repercute na realidade em qualquer das suas formas, seja na condição de não culturais ou extra culturais (lembrando o princípio de Heinsenberg sobre cultura de massa, – o olho intervém na coisa em si), o que acabou por unir os teóricos em uma só doxa, ou seja, em uma única opinião: eles crêem que o “referente não existe mais.” Lembrando-se que referente, é definido como “o ato que estabelece uma relação entre o símbolo e o seu objeto, ou seja, o ato da interpretação.”
Fica mais que evidenciado, portanto, que os conteúdos dos próprios meios de comunicação transformaram-se em mercadorias, que são então jogadas, em alguma versão ampliada do mercado à qual se filiam, até que as duas coisas venham a amalgamar-se perfeitamente, tornando-se, assim, indefinidas. E, nesse ponto, não custa termos em mente que esse processo engloba também (ou, sobretudo!) o corpo humano, que passa nos tempos presentes pela via da ‘coisificação’, para devidamente ‘fatiado’ e, portanto, mais facilmente ‘mercantilizado’ ser ‘vendido’ em peças siliconadas, ‘malhadas’, em permanente processo de ‘re-construção’. A granel. Essa temática, inclusive, foi alvo de uma série de cinco reportagens, com o título “Corpo: Objeto de Consumo – O corpo como mercadoria”, de autoria de Jeanne Bilich, exibida na TV Vitória – canal 6, no período de 13 a 17 de maio de 2002, tendo conquistado o 1º lugar no 8º Prêmio Capixaba de Jornalismo/2002, estando à disposição daqueles que se interessarem em assisti-la. Resumindo: os produtos (aliás, os executivos das emissoras chamam agora de ‘produto’ a toda e qualquer produção seja jornalística ou de entretenimento) ganham identificação própria, voltando ao mercado e tornando-se parte dele e, assim, ratificam e atestam sua identificação.
Finalizando, Jameson advoga que, na realidade, o que se faz necessário é a construção de um grande projeto coletivo do qual participe uma ativa maioria da população, como algo a ela pertencente e erigido com sua própria energia. O estabelecimento de prioridades sociais integraria esse projeto coletivo. De qualquer forma, enfatiza o crítico com redobrada ênfase: “o mercado não pode, de modo algum, constituir um projeto.”
E, para encerrar, gostaria de deixar como tema de reflexão para cada um de nós, o seguinte trecho, extraído da obra “O jornalismo na era da publicidade”, pág. 95:
“A publicidade tornou-se assim a seiva da sociedade, por onde passam, giram e confluem todos os movimentos sociais. Trata-se não somente do universo físico presente no dia a dia de cada pessoa, mas também na imensa estrutura invisível e imaterial que se acomoda nas mentes de consumidores de maneira inconsciente. Cria-se, dessa forma, uma atmosfera publicitária que orbita dentro e fora dos indivíduos e influencia as mentalidades e o próprio devir da sociedade. Não é exagero considerar que esse novo império de signos, imagens e ícones transforma a publicidade em uma espécie de novo farol da sociedade, para onde convergem as ânsias, os fetiches e enigmas submersos na inconsciência. Símbolo de referência, a publicidade transforma-se em uma obra de reverência e submissão, mesmo contra todas as aparências e os desejos confessos.”














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