«

»

ago
21

“Zeitgeist” reúne crônicas de Jeann Bilich que transcendem ao espírito do tempo

Capa Zeitgeist“São 23:30, hora local. Estou na estação de Hauptbahnhof, em Frankfurt, terminando este prefácio. O trem rompe o silêncio da fria noite alemã, aproximando-se velozmente da plataforma. Enquanto passam os vagões, percebo que o som do deslocamento do vento parece soprar a palavra zeitgeist, zeitgeist… no fugaz fluir da ‘grande serpente metálica’, como o próprio ‘espírito do tempo’”. Nesse cenário, Sidemberg Rodrigues teceu o prefácio do novo livro de Jeanne Bilich, não apenas inspirado no espírito do tempo de Jeanne, mas naquele momento estava também transcendendo o espírito do espaço.

Foi Sidemberg mesmo que numa conversa informal propôs a Jeanne reunir suas crônicas publicadas no Caderno Dois, de A Gazeta, de Vitória – ES. Jeanne assentiu, mas o advertiu de seu pouco tempo para selecionar tantas crônicas, e nesse momento entrou em cena a escritora Deny Gomes, que garimpou a partir de julho de 2007, o que ela considerou relevante e agora nos presenteia com este Zeitgeist , que será lançado na próxima terça-feira (25), às 19 horas, no Salão de Eventos da Assembleia Legislativa.

“São textos exemplares pela fusão de amável conversa com o leitor e sofisticado repertório de reflexões sobre a vida, a história e o tempo”, nos assegura Deny na orelha do livro. Segundo ela, “trata-se de crônicas solidamente ancoradas em experiências múltiplas de mulher, advogada, jornalista, radialista, entrevistadora e, acima de tudo, interlocutora e participante interessada no diálogo da vida”, “que convencem o leitor a cruzar um pórtico textual e quântico para experienciar seu próprio drama existencial, muitas vezes impermeabilizado pela alienação”, complementa Sidemberg.

Zeitgeist é o título de uma das crônicas que estão no livro. É claro, é alemão, a única língua possível para a filosofia, segundo Caetano Veloso. Zeitgeist é a combinação de dois signos:  Zeit que significa tempo; geist, espírito. Zeitgeist traduz, portanto, o espírito do tempo. Nesse contexto estão todas as crônicas selecionadas em que Jeanne constata criticamente as mazelas humanas, mas se coloca esperançosa o suficiente para almejar superá-las.  Deny nos revela uma Jeanne também irônica “apenas o necessário para sugerir o despreparo da sociedade contemporânea em relação aos valores mais significativos da existência, mas compassiva e generosa para com a humanidade e suas fraquezas”.

“Com um admirável poder de síntese, Jeanne Bilich, no esplendor de sua performance, planta sementes na consciência leitora, que, uma vez assentadas, expandem-se em um incômodo Big Bang de conclusões irrefutáveis, que tiram o leitor de sua zona de conforto, para torturá-lo num mar de indagações enfeixadas em forma de senso de urgência”, diz  Sidemberg.

Deny conclui afirmando que Jeanne em suas crônicas “transita do mundo da política para o das artes, conversa com o sagaz leitor e com seu gato Nietzsche, refere-se aos clássicos gregos e latinos e aos mais contemporâneos filósofos, sociólogos, romancistas e cineastas. Ela nunca é vulgar.  Jamais será aborrecida.  Ler suas crônicas é entrar num fascinante jogo de sedução que tem por objetivo incluir-nos numa numerosa legião de amigos”.

Petisco

Leia abaixo a íntegra da crônica que deu nome ao livro:

 

                               Zeitgeist ou Espírito do Tempo

“Poder-se-ia ver o espírito da época soprando, ora quente, ora frio, sobre as suas faces”, grafou Virginia Woolf (1882-1941) no seu magistral “Orlando”. O espírito da época ou o espírito do tempo pode ser dito, ó sagaz leitor, numa única, bela, sibilante, veloz – e, para mim, quase mágica! – palavra em alemão: zeitgeist (pronuncia-se tzait.gaisst).

Zeit que significa tempo; geist, espírito. Zeitgeist traduz, portanto, o espírito do tempo dominante em certa época, prevalecente num determinado contexto histórico. A palavra condensa a atmosfera intelectual e cultural – o somatório dos saberes da época – e, ainda, o clima moral, emocional, artístico e comportamental de nós, homens, no caminhar pela trilha da Linha do Tempo Histórico. Jornada iniciada nas civilizações primeiras, estendendo-se por milênios até os dias presentes: pós-modernidade. O conceito zeitgeist, idealizado pelo filósofo alemão Johann Gottfried Herder (1744-1803), só passou a ser melhor conhecido com a obra “Filosofia da História”, de Hegel.

Espero, ó paciente leitor, que o preâmbulo não o tenha entediado, pois busco bem alicerçar o hipnótico fascínio que o zeitgeist irradia. Por quê? Porque enfeixa duas das minhas candentes paixões: o Tempo e a História. Aliás, sequer há como dissociá-los: tempo é história – seja a da nossa singular trajetória incrustada no panorama socioeconômico, político, ideológico e cultural ora vigente; seja na História – com H maiúsculo – que remonta às antigas civilizações (Mesopotâmia, Egito, Grécia e Roma), projetando-nos para o futuro: a exploração espacial prenunciando a colonização humana do cosmos. Tempo & História. Zeitgeist.

Mas, caso o sagaz leitor, não se interesse pela História ou – quem sabe? – nem pelo fetiche do Tempo – a despeito do lembrete de Jorge Luis Borges: “Tempo é a substância da qual sou feito” –, convido-o a peculiar zeitgeist. Musical. Como? Ora, experimente ouvir o “Trenzinho Caipira”, nas Bachianas Brasileiras nº 2, de Villa-Lobos. Instantaneamente somos tragados pelo “buraco negro” do tempo, recuando para os primórdios do século XX. Embalados pela cadência rítmica da orquestra que reproduz o som da locomotiva “Maria Fumaça” resfolegante, cortando serras, “dobrando” morros, enquanto verdes campos, rios e plácidas lagoas se descortinam…

E que tal nos ejetarmos, a seguir, num zeitgeist musical futurista? Aposto em “Also sprach Zarathustra”, de Richard Strauss, trilha sonora de “2001: Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick. Se preferir, ó cinéfilo leitor, (re)assista ao filme ou acesse as cenas de abertura  no YouTube.  O despontar do Sol sobre o planeta em elíptica, ao som de tambores fortes anunciando nova aurora para a humanidade do futuro. O advento do Super-Homem de Nietzsche? Bravo!… Bravíssimo!…

Já o zeitgeist musical do presente… Bem, talvez, “Carmina Burana”, de Carl Off, enquanto, numa sucessão célere de flashes mentais – clip? – revemos o ruir das torres gêmeas do World Trade Center, o genocídio no Afeganistão e no Iraque, a fome e a Aids a dizimar populações inteiras na África…  E, por último, minimizando o foco, captar a alma de cada um de nós, de per si, nos respectivos e personalíssimos zeitgeist musicais. O meu? “Meditação” da ópera “Thaïs”, de Jules Massenet. E quanto ao seu, ó sagaz e sensível leitor?!…

1 comentário

  1. Sidemberg disse:

    Caqui,
    reconhecer sua sensibilidade pela presente matéria poderia parecer auto-confete (pela minha intensa relação com a Jeanne, por ter participado do livro, etc). Mas, deixar de fazê-lo seria injusto. Você captou o espírito da coisa. Aliás, a alma! Sinto falta de jornalistas e cineastas como vc. Vez em quando, coincidia ouví-lo na rádio. Me lembro de nossa época de jornalismo, quando o Caderno de Informática falava de cinema e a redação de emoção. Acho amizade e delicadeza essenciais em qualquer ambiente de trabalho. Visão de conjunto também. Especialmente nos que escrevem. Chamo isso de Espiritualidade, embora a maioria ainda pense que eu fale de religião. Você é espiritual, multidimensional e quântico. Mora além dos portais da Jeanne e sabe muito bem que ocupa a posição dos que serão sempre guardados pelos deuses. No podium dos competentes e eternos. E ternos. Parabéns pela poesia em prosa!
    Abraço afetuoso,
    Sidemberg.

Deixe uma resposta

Seu e-mail não será publicado.

Você pode usar estas tags e atributos HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>